Capítulo décimo sexto

O dia que sonhei com David Bowie 

Estava num píer em alguma praia do litoral Norte de São Paulo. Atrás de mim, uma majestosa montanha verde da Serra do Mar e, ao meu lado, David Bowie! Debruçados no guarda-corpo de madeira, ambos apreciávamos o oceano extremamente azul.

A brisa fresca do mar movimentava a camisa de linho branca de Bowie e um cabelo loiro que lembrava o do filme “Fome de Viver”, em que ele atuou com Catherine Deneuve. 

– E aí? Perguntei, com uma estranha familiaridade, como se já o conhecesse faz tempo. 

– Tranquilo, respondeu Bowie, com um ar despreocupado, quase blasé. 

Os olhos bicolores do “camaleão do rock” esboçaram um sorriso. Ele se voltou para mim e disse: 

– Eu já experimentei de tudo… 

Eu não sabia o que dizer. Fiquei quieto e acenei com a cabeça em sinal de compreensão.  Um silêncio confortável imperava. Só ondas, pássaros e o vento faziam barulho ali.  Foi quando vimos uma pessoa se afogando a uns cem metros de nós. Estava se debatendo e pedia por socorro. Era uma mulher. Bowie se virou para mim com uma expressão incrédula e soltou uma das frases mais sem sentido que eu já ouvi na minha vida: 

– Eu não sei quem é essa mulher, mas a conheço muito bem! 

Em seguida, pulou na água e nadou até a pessoa num piscar de olhos, colocou os braços em volta do corpo e veio nadando até o píer. Foi tudo tão rápido que me limitei a observar o resgate e apenas ajudei Bowie a erguer a mulher até o deck.  

Curiosamente, ambos saíram do mar secos: Bowie, impecável com sua camisa de linho, e a moça, uma negra alta e linda com vestido e cabelos esvoaçantes que sorria para mim. 

– Essa é minha esposa, Iman, disse David Bowie. 

E foram caminhando do píer para a praia até sumirem. 

Valentina Figuerola &
Daniel Eid Tucci

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