Capítulo décimo quinto

Numa manhã de segunda-feira, toca o telefone e é a Ana, empregada da minha mãe: “sua mãe piorou muito, não está falando coisa com coisa e não quer levantar para tomar café”. Entrei no carro e fui direto para a casa dela. A Av. Bandeirantes parada como eu detesto essa avenida! Fui lembrando quantas vezes fiz esse caminho desde que entrei na faculdade até me mudar para São Paulo e depois para ir visitá-la.  
 
Estacionei na frente da casa dela. Um portão de alumínio e um muro bege. Aquela casa tinha se tornado uma fortaleza de uma mulher muito isolada e seus cachorros. Eles começam a latir, eram 14. Vejo a Ana e pergunto automaticamente: “Eles já comeram?” Passei pelo mesmo piso da garagem que costumava brincar no sabão e olhei a mesma parede onde fazia paredão de vôlei nas tardes depois da lição. Vi o lugar onde ficava o telefone que eu ficava horas intermináveis com meus amigos, João, Alberto, Joel e Adriano, ou com possíveis paquerinhas.  

Olhei o corredor agora pintado de um verde clarinho, percebi um enfeite em cada janela. Uma Nefertiti de gesso, um papai-noel, um gatinho de porcelana e um galo português. O corredor era, por sinal, bem comprido e separava o meu quarto da cozinha. Jantávamos na cozinha enquanto conversávamos sobre astrologia, buraco negro ou sobre alguma matéria da revista Seleções. Depois do jantar eu ia para o meu quarto e tinha que atravessar o bendito corredor. Era escuro e como eu morria de medo, ia correndo. Já no quarto, ligava o abajur de Nossa Senhora da Aparecida e me enfiava na cama. Tenho pavor de fantasma, do meu pai aparecer e me contar algum segredo. Medo!  
 
Entrei no quarto da minha mãe e senti um cheiro úmido. As paredes descascadas, o armário embutido de cerejeira, a cama sem lençol e vários cachorros em cima. Tinha também uma mancha grande no colchão. Ela estava de camisola de malha bege e dormia. Quando os cachorros latiram, ela abriu os olhos sonolenta. Começo a conversar com ela, pedindo para se trocar. Ela responde: “não vou a lugar nenhum… me deixe morrer aqui” e começa a rezar a Ave Maria. Pego algumas roupas, calcinhas, pijama, um tênis que ainda estava na caixa, que eu tinha dado. Ela percebe o movimento e começa a gritar. Me olha com um olhar brava. 
 
Já no carro, ela olhou para a estrada. Quieta. Foi a última vez que ela viu a Via Anchieta. Ainda bem que estava sol. Um dia lindo. Passamos pela represa, onde meses depois voltei para jogar suas cinzas. Ela morou lá para sempre. 
 
Lembro dela todos os dias. Dona Dinorah! 
 

 Yara Dewachter 

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