Capítulo décimo sétimo

Que gracinha!  
Oi! Você nasceu! Que gracinha! Princesa do papai, boneca da mamãe. 
Já está sentando? Já nasceu o primeiro dentinho? Que gracinha! 
Nossa! Já está engatinhando? Com quantos anos andou? E já está falando? O que fala? Já está na escolinha, que gracinha! Já sabe ler? Quando vai se formar? Já sabe o que quer ser quando crescer? Não sabe? 

Que gracinha, ainda tem tempo.  Já menstruou? Já tem namorado? Já beijou? Já vai fazer vestibular? Já transou? Já está estagiando? Que gracinha! Quando se forma?  Quando fica noiva? Quando se casa? E a lua-de-mel?  Já foi efetivada? Que gracinha! Quando vem o primeiro filho? E o segundo? E quando virá o próximo? Não virá? Que gracinha! Ah! Ainda está pensando? Que gracinha!  

Silêncio. Silêncio . Que silêncio .  

Ninguém pergunta mais. Não querem saber? Não querem saber que minha menstruação está desregulada há uns dois anos? Não querem saber quando irá parar?  
Ninguém pergunta se sinto calores noturnos, se durmo bem ou se essa noite nem dormi? 

Alguém aí quer saber se ainda transo? Se tenho desejo, se estou feliz, satisfeita? Se ainda beijo na boca?  Será que não ouvi ou não perguntaram quando irei parar de trabalhar? Perguntaram por que  trabalho tanto? Porque trabalho nesse emprego? Perguntaram se quero mudar? Ah! Acho que ouvi um “quando irá se aposentar?” Mas foi só o que perguntaram.  

Alguém quis saber da reposição hormonal? Quais saber se cabelo caiu ou se vagina secou? Que gracinha, ninguém teve interesse, ninguém teve coragem.  Quando vou diminuir o ritmo, alguém quer saber?  E sobre os meus dentes? Que gracinha, será que caem?  Caem! As bochechas caem, a bunda cai, a pálpebra cai.  Ninguém vai perguntar o que vou fazer agora? O que vou ser quando envelhecer?  Alguém perguntou se aguento ser quem sou agora que envelheci? Já envelheci!

Não sei quem sou.  Ninguém perguntou como me sinto, ninguém falou do cabelo branco, da barriga. Será que ainda tenho apetite sexual? Não dá para saber, ninguém perguntou.  Alguém quer saber se sou feliz? Se fui feliz?  Ninguém perguntou por planos, sonhos, desejos, possibilidades.

Ninguém perguntou. Tá velhinha, que gracinha! O que você é agora que está velhinha?  Não sabe? Que pena, não dá mais tempo. 

Cláudia Barroso

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