Capítulo décimo quarto

Acordou e não se sentiu cansada. 
No café da manhã, sobrou três pães e ainda teve leite pra Laika. 
Deu tempo de estender os lençóis, endireitar os tapetes de crochê da sala, tirar a mancha do molho de salsicha feita com muito capricho pelo Juninho na toalha de mesa, levar a Maria Vitória na UPA e pegar o terceiro ônibus antes das 8h10 daquela segunda-feira. Aliás, foi difícil acreditar que o ônibus chegou no ponto na mesma hora. Não foi nem preciso esperar. 
Por falar em ônibus, a catraca estava quebrada e todos passaram de graça. Deu pra sentar espaçado, sem ficar um por cima do outro, e a Bete uma relâmpago que brotou na condução, deu a dica que a Barateira da 17 de abril estava com 70% desconto em todos os sutiãs até o final do dia. 
Com três horas de atraso, envergonhada, chegou no emprego, mas ninguém reclamou – inclusive perguntaram se não queria tirar uma folga. Imagina. Recusou e procurou o que fazer mesmo com a casa limpa, a mesa do café já arrumada e a roupa passada. Dona Helga a lembrou que poderia adiantar o almoço. Ótimo, mas era só esquentar. 
O tédio custou dar meio dia para servir a comida e, depois do almoço, lavou devagar a louça com medo de ficar sem ter o que fazer. Dona Helga disse que não era preciso se preocupar com uma casa em ordem e a dispensou pelo resto do dia. 
Deu tempo de correr na Barateira. Graças a Deus! E a Vivi, a atendente preferida, deixou utilizar o provador. Tava tão barato que levou dois por 3,70. Agora teria três. 
Vitão colocou crédito no celular e ligou oferecendo carona de volta para casa. Foram conversando sobre a vida e foi bom. Estava feliz com uma gorjeta extra de um carreto que surgiu de última hora e pararam no Ligeirinho Tem de Tudo. O locutor Valdir anunciava “Aniversário do Mercadinho – show de ofertas para toda a família”. E era mesmo. Pela primeira vez na vida, a mortadela defumada estava mais em conta que o apresuntado e ia ser a janta dos meninos. Vitão já tinha deixado descongelar os quatros bifes de fígado. Era só adicionar o resto da moela com farinha, lavar meia dúzia de folhas de alface e eles estavam feitos. Com sorte ainda tinha um tomate na gaveta. 
Sem pressa, comeram e sentaram adiantados pra ver o jornal. Depois veio a novela e retomou o crochê que havia prometido para a Cleide merendeira. Era batizado da filha dela no domingo e o vestidinho iria ficar pronto a tempo. Naquela hora, nenhuma conta atrasada a fez errar o ponto das agulhas. Puxou um banquinho na beira da calçada e notou que a prefeitura finalmente havia trocado a lâmpada do único poste da rua. A Ruth e a Elvira acenaram do outro lado. Deu pra ver a Dona Nevinha no portão e abanou a mão também. A Cida veio até a porta para contar que o Seu Álvaro tinha saído do SUS e aproveitou para oferecer o último número na rifa do frango que correria em 10 minutos. O número era o zero. Não era bom. Não ia dar. Mas fez fé esperando. 
E deu. 
Sem acreditar na alegria, foi pra cama dormir e, feliz, pegou no sono. 
Naquele dia, não viveu. 

Renan Quevedo 

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