Capítulo décimo primeiro

Meu casamento com Alexandre foi azul. Aliás, falando em azul, Alexandre, foi sempre uma pessoa meio conservadora, então pra ele, “menino é azul, menina é rosa”. Nossa, que vergonha. Mas é verdade. Vergonha em falar que me dei bem com ele, com alguém que pensa assim, tantos anos. Mas foi uma paz essa relação. Tudo que eu queria, Alexandre resolvia. Ele sempre se adaptando a mim, mesmo sem entender um pingo conceitualmente. Era um gentleman, afetuoso, me respeitava mesmo. Me sentia valorizada, às vezes até demais. Desequilibrado de algum jeito, mas ainda assim, um azul celeste, uma paz…

Mas aí amiga, a surpresa veio quando a gente entrou na história do sexo. Ihhh menina… Como é que eu explico? Nem é tão difícil assim, nem tem tanto pra explicar se é que você me entende… Fiquei com aperto no coração a primeira vez que vi. Com dó, pode falar isso? Ele simplesmente não tinha pinto! Não tinha nada lá. Era zerado mesmo. Nossa, que confuso isso para mim. Enquanto no sexo até encontramos outros jeitos para transar, mas menina, me fazia falta um pau de verdade dentro de mim, poxa!

Como que a gente nunca falou sobre isso antes? Ficava tentando entender como alguém passa a vida inteira com uma questão dessas, simplesmente um homem sem pinto, e não fala nada. Como que ele não apresenta o assunto alguma hora antes da gente ficar pelado? Como que finge que não tem nada demais, tá tudo certo, normal, dentro do padrão? Virou o elefante branco da relação.

A gente era todo sorrisos na hora de tomar um sorvete, todos meigos no cinema, mas no fundo, pra mim, sempre ficava lá a questão do Alexandre, o Homem-Não-Pinto. Continuamos casados por um tempo, mas pouco a pouco, o “não ter” ou o “não falar sobre” começou a me incomodar. Quando eu tentava trazer o assunto a tona, vixi, Alexandre voltava para o seu mundo tradicional, e ficava puto comigo. Evitava o assunto que nem homem que ainda acha que a própria mãe é virgem, coitado. Pra mim não dá, me irrita, me deixa louca. A gente começou a brigar e a paz que tínhamos foi indo embora.

Eventualmente, voltei a enxergar nosso azul, mas dessa vez veio como um azul triste, puxando pro roxo, mais escuro… Um azul diferente do que era no começo, mas ainda azul. Nos separamos e Alexandre, o Homem-Não-Pinto, tocou sua vida e eu fui seguir com a minha. Casos, namoros e afins, casei de novo até, mas nunca esqueci. E confesso que até hoje ainda não parei de me perguntar, “Alexandre, como é que você faz xixi?!”

Amanda Ferreira

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