Capítulo décimo

Eu tenho 24 anos, moro em Piatã, interior da Bahia, no mesmo lugar há 3 anos. Não envelheço, não durmo, não como. Não consigo sair daqui e nem quero. Aqui é um sossego. Só os cachorros e gatos brincam comigo. Sinto saudades de vários amigos que pararam de me visitar há uns dois anos. As vezes saio de madrugada e vejo eles bebendo no bar, mas passo longe, não consigo e nem sei se quero ouvir o que eles falam. Minha mãe me visita todo domingo. Um dos meus irmãos sempre trás ela depois do almoço.

Ela não chora… Eu sinto falta do arroz e feijão com leitão que ela cozinha maravilhosamente, me dá água na boca. E da rapadura de amendoim que a minha avó Neguinha sabe fazer. Qualquer hora minha avó vem morar comigo, mas nem espero que seja logo. Tem muita gente da minha idade aqui.

Todo carnaval é a mesma coisa, saímos de uma cidade para outra já bêbados e achamos que nada vai acontecer. Então vem a carreta do outro lado, com um
motorista virado que precisa chegar em algum lugar urgente, não prestamos atenção e pum. Foi-se!

Do meu carro só morri eu na hora, o Otávio morreu três meses depois, ele também mora aqui. Somos bem próximos, nunca namoramos, rolam uns olhares às
vezes. Eu continuo sempre com o vestidinho colorido e all star amarelo. Meu cabelo cresceu no primeiro ano, mas agora parou. Tem uma turma do rock que morreu o ano passado, uma banda que ia tocar em Vitória da Conquista e bateu o ônibus. Eles vivem brigando, a que estava dirigindo nunca se perdoou, os outros já entenderam. Eles sempre tocam e ensaiam as mesmas músicas. As que iam fazer no show. Bem nostálgico.

Eu tenho nostalgia, essa é a palavra certa? Do que eu poderia viver. Eu queria me formar em psicologia, estava no primeiro ano. Quando chega um morador novo eu tento usar o pouco que sei para confortar.

Sempre imaginei que íamos usar roupas brancas e viver num gramado lindo, mas ainda não rolou. O meu cachorro de quando eu era viva se mudou para cá, já veio no dia do meu enterro. Ele vai para casa, come, passeia, mas vem dormir aqui. Ele fica do lado do meu túmulo, super fofo. Converso com ele, brinco, jogo pauzinho. Adoro! Já está ficando velhinho, mas continua firme e forte. Ele se chama Milou, como o desenho do Tin-tin, que eu assistia sem parar quando era criança.

Às vezes ia na minha antiga casa, via meus irmãos envelhecendo, cuidando da minha mãe. Eu não vou mais lá, dá um vazio, uma saudade que vira alegria quando vejo eles vivendo e tocando a vida, mas de novo vem uma saudade estranha. Prefiro ficar aqui no cemitério mesmo… é só a morte continuando pacata e rotineira.

 Yara Dewachter

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