Capítulo nono

Imerso 
 
Adentrar sempre foi um verbo desafiador. E esse foi o desafio aceito por nós, desde o primeiro encontro. 
Sua intensidade de estrela cadente dava-me um medo abissal; temia perdê-lo na próxima esquina da vida. 
Ainda que minha vontade fosse te prender nos meus braços, sabia que pássaros livres como você não entram em gaiolas. 
Talvez hoje veja como presságio aquela primeira vez. 
Não tenho costume de transpirar tanto, nem você, mas os lençóis tiveram que ser trocados após aquele longo encontro, onde lambemos cada milímetro de pele um do outro. 
Enquanto mordiscava seu pescoço, dentro daquela maresia e do movimento de água, assistia nossa dança, via pequenas gotículas que pulavam no ar ante o atrito de nossos corpos e do movimento frenético dos nossos quadris. Luz, sombra, flashes e os alucinantes gemidos que me deixavam ainda mais rígido, com mais gana de seguir adentrando cada vez mais fundo, sabendo que, em breve você, viraria o jogo e também se aprofundaria em mim. 
Ficamos assim, afogados um no outro, imersos completamente. 
Apesar do desejo latente tínhamos alguns desencontros. Você era intenso em tudo, seu gênio impetuoso era difícil de acompanhar. Eu já não era um menino e fazia vista grossa ante seus voos suspeitos e seus sumiços. 
Eu também fazia um ar prepotente, dava uns olhares de James Dean a qualquer serviçal ou conhecido na sua frente, só pra te manter esperto. Você não disfarçava a insegurança e eu ridicularizava a situação. Era teatro, teatro apenas! Ninguém despertava em mim aquele desejo que só você me proporcionava. 
Numa noite de loucura, de bebida e amigos, alguém trouxe um cavalo. Eu tive medo, confesso! O álcool já havia tirado nossas rédeas e seria impossível impedi-lo. 
Fui contigo até onde pude, mas tua pupila dilatou demais, a brincadeira ficou constante demais, a velocidade era frenética demais, soltei sua mão. 
Você pegou seu cavalo branco, me disse que estava no controle e cavalgou por meses sozinho, naquele ar seco, levantando poeira, até que te perdi naquela névoa branca. 
Até hoje tenho esse sonho: eu sozinho, no frio, te procurando sem sucesso. 
Era impossível administrar aquilo. Fiz minha mala, esperei sua mãe e lhe entreguei as chaves. Chorei com ela, abraçados choramos muito. 
Você jamais me perdoaria por ter te delatado e por isso seria definitivo. 
Me fiz difícil de achar e talvez você nunca tenha me procurado, tenho certeza disso. 
Os anos se passaram entre clínicas, altos e baixos. Preferi não saber de ti, mas era inevitável algum conhecido soltar um fragmento seu. 
Soube que você convenceu que o melhor seria ir para a Europa, convenceu a todos, você sempre foi ótimo nisso. E você foi, e um dia pra sempre… 
Hoje é um dia de sol, tem uma piscina bonita no pátio de casa. 
Eu tenho o estranho hábito de mergulhar e, embaixo  d´agua, segurar a respiração ao máximo. Quando beiro o afogamento vejo seu rosto, a água me abraça e flutuo como dentro do seu abraço molhado e inesquecível. Dura pouco, mas é ali que te encontro: Imerso, intenso, molhado. 

Leandro Flores 

Capítulo 8 | Capítulo 10