Capítulo terceiro

Domingo de manhã, vou na feira com minha mãe. Estou aprendendo a escolher frutas e verduras. Aliás, sei fazer uma salada muito bem. Tomo garapa com pastel e voltamos para casa. Ao meio dia em ponto, meus tios e primos chegam para o almoço e trazem meus avós Alzira e Carlos. Vamos comer cannelloni de presunto com queijo e molho vermelho. Almoçamos quase tranquilamente. Falamos um pouco de futebol (todos palmeirenses menos eu e a Virgínia, minha prima).  

Na varanda, tomamos café e sorvete napolitano. Claro que o de chocolate acabou primeiro e o de morango sobrou, mas eu não me importo em comer o de morango.  

Minha casa é grande e meus primos e eu vamos brincar de esconde-esconde. Com tanto lugar disponível, resolvo me esconder atrás de um cachorro grandão de porcelana e, quando meu primo me acha, me assusto e quebro o bendito cachorro. Um barulhão. Fico aterrorizada. Minha mãe entra em casa e me encontra com o cachorrão caído e quebrado. Escutei apenas um “vai ter vingança”. Silêncio. 

Minha família foi embora e ainda assistimos o Fantástico. Então, no meio do programa ela levantou, pegou uma sacola e começou a colocar várias bonecas minhas dentro. Eu fiquei desesperada, afinal ali estavam todas minhas fantasias familiares, amorosas, sexuais. Na segunda-feira, deu minhas bonecas. O que eu podia fazer?  

Lembro de ir na casa da minha vizinha Fátima e  minha boneca estar lá sentada na cama dela, toda enfeitada. Minha boneca ruiva linda. Na cama de outra. Minha boneca Suzana na cama da Fátima. E eu, Yara, tomando café com a Fátima e vendo a Suzana sentada lá sozinha. Não bem sozinha, mas com um urso de pelúcia azul. Parece Toy Story, mas é a vida real. Foi a vida real. Quis muito a minha boneca de volta, mas não tive coragem de pedir. 

Corta a cena. Mais perto do presente, mas há alguns anos, estava na feira do Bixiga com o Evandro e fiquei louca quando vi uma boneca descabelada, pelada e ainda maquiada. Lembrei de todas as fantasias sexuais que eu tinha com minhas bonecas. Compro cinco na mesma hora a preço de liquidação. 

Penso, lembro, invento, levo o conjunto para o ateliê. Olho, pego, mexo, ponho uma lado a lado com a outra. Lentamente, jogo cera quente e aos poucos ela vai se cristalizando e preenchendo os espaços. As cinco bonecas ficam deitadas, lindas afogadas, juntas e plácidas. Presas para sempre perto de mim. Podem ficar tranquilas no ateliê e respirar. Só não podem se mexer. 

Yara Dewachter 

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