Capítulo quarto

Eu sempre sonhei muito, desde moleque. 
E sempre lembrei dos meus sonhos. 
Já tive caderninho de anotar ao lado da cama, já tive caderno de anotar longe da cama. 
Uma época eu anotava o que lembrava dos sonhos sempre no final da tarde, como num exercício surreal. 
Passei por todos os sonhos típicos freudianos, de cair, de sair na rua pelado, dos dentes caírem, de mastigar chiclete até a boca encher e dar desespero, de achar que meu tio era meu namorado, de sair na rua vestido mas descalço, todos esses sonhos. 
Mas tinha um sonho que eu sempre acordava desesperado. 
Não era um pesadelo, era um sonho que me deixava desesperado. Um sonho recorrente da minha infância, que eu sempre lembro dele com saudade. 
Pois é, saudade de sonho. 
Tem outro sonho que me dá saudade também, mas esse é saudade boa. 
Eu sonhava que estava em uma festa maravilhosa em um salão de um palácio europeu, em alguma época de um passado rico mas que também era em um futuro pobre. 
Nesse baile eu ia andando em meio às pessoas dançando e ia diminuindo de tamanho. 
E ninguém percebia isso. Ninguém nem me percebia. 
O legal desse sonho é que eu sentia alguma coisa no meu maxilar. Mas não no sonho, na vida real. 
Eu sonhava com o baile, sentia o treco no maxilar, estava dormindo, mas sabia o que estava acontecendo. 
Sempre tento ter esse sonho de novo. 
Difícil. 
Voltando ao sonho que me dava desespero. 
Eu sonhava que saía de casa e ia à casa dos meus primos, que ficava na rua de baixo da minha. 
Ia lá brincar. 
Chegava na casa, a porta estava aberta, eu entrava e não tinha ninguém dentro. 
Eu ia para a cozinha em direção a porta que dava para o quintal. 
Ao abrir a porta eu me via do outro lado esperando por mim mesmo. 
De. Ses. Pe. Ro. 

Fabiano Liporoni

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