Capítulo segundo

A primeira vez subi porque soltaram os fogos. 

Final de campeonato é sempre um terror. Os vizinhos começam cedo, assam a carne, muita cerveja, ouvem pagode mas terminam no funk. Gritam, xingam, choram e comemoram. Basta um começar e todos gritam também. Parecem cachorros na madrugada, sabe? Um late lá do alto da rua, o que está no quintal duas ruas abaixo responde, os pequeninos do apartamento aqui de cima não se aguentam e aí eu também dou minhas latidas. 

Ninguém sabe porque está latindo, nem o que fez com que tudo começasse. Mas isso não faz a menor diferença. 

Acontece o mesmo no dia de jogo. Final de campeonato então, sem comentários. E aí soltam os fogos. Eu subi pela primeira vez meio sem querer, num acesso de histeria mesmo. E depois não consegui descer. Morro de medo de altura. Até com as escadas tenho lá minhas dificuldades. Então eu subi e não consegui descer. Lati mais ainda, mais alto, mais estridente. Ninguém me ouviu. 

Fiquei lá andando de uma ponta à outra, um tempão. Foi quando ela apareceu na cozinha. O jogo já havia terminado. Os fogos ainda soavam lá fora, mas cada vez mais espaçados e distantes. Isso deu espaço para ouvirem meu desespero. Quando ela entrou no cozinha eu tremi. Um misto de alegria e de pânico. Pânico porque eu estava bem em cima da mesa! Um lugar meio que sagrado nessa casa: sempre enfeitada, sempre com frutas, onde todos se reúnem para almoçar todo domingo. E eu ali, com minhas patinhas que já haviam passeado até lá no lote vago do vizinho. 

Tremia de alegria e de pânico. Meu rabo não sabe se comportar nessas horas, parecia um helicóptero. Mas tudo isso foi só por um instante. Uma gargalhada me fez acreditar em um final feliz. Ela achou “que lindinha”, foi o que disse levando as mãos ao rosto. Chamou a família inteira, que estava discutindo e comemorando o fim do campeonato. Todos acharam “que gracinha” e “agora não consegue descer”! 

Fui saindo do pânico para a dúvida, da dúvida para a surpresa e da surpresa para a certeza. Daqui em diante, a mesa me pertencia também. 

Cláudia Barroso 

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