Capítulo primeiro

Que perigo querer ser a Madonna! 

Em 1991, na primeira vez que assisti ao documentário “Na cama com Madonna”, me lembro de estar sozinha na sala com o meu VHS, daqueles bem antigos que a tampa abria para cima, e pensar “eu sou curiosa pelas histórias das pessoas”. Não sabia nem por onde começar, mas o meu coração pulou e a cabeça borbulhou ideias. 

Que delícia querer ser a Madonna! Usava shorts com meia arrastão e fiquei loira. Hoje, angustiada no fim do dia, quero ser tantas pessoas. Que mulher eu sou? Eu sou branca, alta, cabelo liso, gordinha. Artista. 

No ateliê na Santa Cecília, instalações em construção. Evandro. Paulo Henrique. Julie. Capitalismo. Socialismo. E desenho todo dia. Tiro a roupa de artista e visto a roupa de outros artistas. Ponho meus anéis e tenho minhas unhas pintadas. O redor me faz ter ideias todo tempo e joga na minha cara as desigualdades desse país. Quando desenho e trabalho, tomo menos remédios. 

Falo tchau rápido pro Evandro, pego o meu carro, Uber ou metrô e venho para a minha casa ficar com meu filho, meu marido e meus bichos. Não me chamem de burguesa! Não me chamem de louca. Estou apenas construindo essa obra – e há 52 anos – e que agora é de vocês. 

Eu quero ser a Madonna. Eu quero ser a Tarsila. Eu quero ser a Lina. Eu quero ser a Djanira. Eu quero gostar de quem eu desenho. Eu quero ser amada. As vezes minha auto-estima fica baixa, mas sou bem exibida: performática, Instagram e cafona! 

Na infância eu queria ser miss, mas tinha várias cicatrizes… 

Yara Dewachter 

Capítulo 2