Capítulo sétimo

Acordei com o susto de uma mordida enorme sendo cravada na parte de trás da minha coxa – acho que essa parte do corpo nem tem nome. Urrei de dor, com a bunda para cima, na cama, ainda melada e quente. O resto do corpo calado e frio. Não conseguia ver o relógio porque estava escuro, certamente não passava das cinco da manhã. Não me mexi. Não me opus ao silêncio. 
 
Ninguém estava ali. 
 
Depois de tentar me convencer que não deveria ter medo, levantei com medo e fui até o banheiro. Tive que acender a luz e, no espelho, vi a marca da arcada completa. Na hora não soube identificar se aquilo era de gente ou de bicho, tampouco depois. Até pensei que aquela cicatriz poderia ser sensual. 
 
Não fui ao trabalho, não dei satisfações, não abri as janelas, não liguei para ninguém, não li meus e-mails. Resolvi almoçar e jantar em casa. Não fui nem ao mercado para buscar o creme de leite do strogonoffe e olha que eu odeio assim. 
 
Eu estava mordida. 
 
Pensei em perguntas, mas queria mesmo respostas. Cansei das perguntas. E é bom que eu fale a verdade: chega dessa história de aprender a fazer as perguntas certas. Eu não estava inteira e parte do que parte permanece. 
 
Foi ali que lembrei do Dirceu, um coleguinha de classe do primário. Sempre andávamos de mãos dadas no intervalo. Às sextas, ele me trazia um presente comestível. Na última vez que o vi, ele me deu alguma coisa (tanto faz o que, realmente não importa), desembalei e comecei a comer. Ele quis um pedaço, eu não dei e ele me mordeu. Soltei a mão dele. De olhos fechados, chorei alto e, quando abri, Dirceu não estava mais lá. 
 
Uns oito anos depois desse acontecimento na escolinha, eu já era quase adolescente e aceitei o convite do meu pai para irmos pescar. No meio da trilha, já quase na lagoa, eu que ia liderando o caminho ouvi um rosnado vindo do meio das árvores em minha direção. Antes de conseguir suar frio, corri em direção ao meu pai. Agarrei sua mão e pulei em seu colo tirando meus pés do chão, mas duas presas acertaram o meu tornozelo. 
 
Não foi difícil me livrar dessas duas memórias, mas quase afoguei quando pensei que logo seria noite e eu perderia a vigília. Coloquei o pijama, escovei os dentes, passei perfume e, já deitada, agarrei firme o travesseiro. A situação pedia postura: do jeito que vier, morre. Adormecendo, soltei as mãos do travesseiro. 
 
No meio da noite, senti um vento próximo a mim e, sem tempo de pensar, saltei na direção do perigo. Nos mordemos ao mesmo tempo. 
Qual é o prazer entre a mordida dada e a mordida recebida? 

Renan Quevedo 

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