Capítulo sexto

Quando era criança tinha problema de enxaqueca, por isso ficava bastante de cama, ficava desenhando. Toda criança desenha, eu sei, mas eu já fazia histórias de famílias. Também muitas fazem, mas eu gostava de ficar na cama desenhando. Não era triste, não. Depois que eu melhorava, ia para a rua brincar. 

O meu pai Ludovicus Gerardus Robertus Dewachter gostava de arte! Pintava e colecionava. Sabe esses “Família vende tudo”? Não perdia uma oportunidade e comprava lotes de quadros de famílias que estavam desmontando a casa. Decorava a nossa misturando tudo. Na sala de jantar do sítio em Valinhos, ele pintou uma parede vermelha e colocou uma enorme cabeça dourada de veado bem no centro. Não sei se era de gesso, só sei que eu era bem pequena e ficava hipnotizada por essa cabeça! O Ludovicus era muito bem humorado, kitsch e rococó. E também cheio de amantes! A minha mãe sofria muito. 

Quando ele estava fazendo um retrato meu, grande, ele morreu! Eu tinha cinco anos. Estava no colo dele assistindo Chacrinha (eu queria ser chacrete e tinha até bota). Minha mãe me deixou pintar por cima. Acredita? Ela não percebeu. Tenho saudades de como seria ter esse quadro. Só lembro do traço dele preto na tela branca, grande, em um cavalete num quartinho de bagunça. Era um quartinho de bagunça e de tesouros. Tinha um cofre e tintas Suvinil de várias cores já  com crostas que eu adorava mexer. Tinha também esqueletos de lagartixas e muitas, mas muitas ferramentas. Era meu esconderijo. 

Tenho saudades do que eu não vivi com o senhor Ludovicus Gerardus. 

Ele com seu robe de chambre comendo gorgonzola, me dando uns pedacinhos, que lembrança boa! Mas não fazia muito bem para saúde de um infartado… Ah! Ele tinha uns passarinhos lindos e exóticos numas gaiolas. Um dia fui dar comida e deixei escapar um. Nossa! Esse homem ficou bravo, viu? 

No dia 24 de dezembro de 2018, pendurei o único quadro dele que sobrou, na sala aqui de casa, junto com um trabalho do Duda Oliveira e um do Burle Marx. Embaixo, um monte de porta-retratos de boas lembranças. Eu também gosto de misturar as coisas. Gosto de misturar pessoas também. 

Quando era adolescente, juntei alguns amigos que amavam desenhar. O Davi, o Baixinho e eu pensamos em fazer um grafite no muro enorme lá de casa. Cada um imaginou o seu desenho, mas minha mãe não queria de me dar dinheiro para comprar os sprays, nem queria deixar o muro cor de areia. Esquisito. Tive que dar um jeito. Convenci a Dona Dinorah e o muro ficou um arraso! 

Yara Dewachter 

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