Projeto Vira-lata

Quando eu tinha 17 anos, queria conquistar definitivamente o menino mais bonito de São Bernardo do Campo. Eu era bem bonita e gostosa também… Isso tornava tudo mais fácil, mas eu não queria conquistar pelos beijos e abraços só. Eu queria conquistar o garoto pelas minhas ideias. Então, ouvindo Rita Lee, eu tive uma ideia: vou conquistá-lo com a Rita Lee!  

Passei a escrever todos os dias uma carta anônima para ele com uma frase de uma música de Rita, e mandava pelo correio. “Menino bonito, basta olhar você e eu me sinto enfeitiçada…”. No outro dia, “seu olhar é simplesmente lindo…”. Em uma semana ele me descobriu e começamos a namorar. 

Pula 33 anos e eu começo a escrever o que ando pensando, de quem eu sinto falta, sobre quem eu amo muito e quem me impactou… O passado se mistura com o presente e o futuro. “E eu não me perco, me encontro”. 

Eu sempre escrevo sobre o que está acontecendo, e dessa vez resolvi compartilhar com algumas pessoas um pouco mais do que de costume. Se vou dividir com você um diário? Os insights que eu tenho no consultório do meu analista? Ainda não sei. No fundo, são histórias de vida que você poderia se identificar. E ter vontade de participar. Que tal? 

Muitas duplas já participam comigo dessas montagens, ora escrevendo, ora com imagens… Evandro, Thompson, Renan, Claudia, Meire, Fabiano. Cheguei a pensar se tudo seria só desenho… Estão mais para fotografias toscas, mas instantâneas. Ficção e realidade, tudo uma coisa só. Tudo se mistura no tempo e nas narrativas. Acredito que sejam capazes de inspirar, fazer sorrir, chorar… 

Eu quero dividir com o mundo experiências. Com os meus amigos, identificações. Pensamentos soltos. A minha mais pura intimidade. As minhas associações. A minha relação conturbada com a minha mãe… quem não teve ou terá? 

Quero re-visitar alguns lugares que me trazem memórias tão vivas, Epecuen, Bixiga, Egito; a casa da minha mãe no Riacho Grande… Meu bairro atual. Mas não quero ir sozinha. Você está convidado a participar comigo. 

Prologue

When I was 17, I definitely wanted to win the most beautiful boy in São Bernardo do Campo. I was very pretty and hot too… It made everything easier, but I didn’t want to win with kisses and hugs alone. I wanted to win the boy over by my ideas. So, listening to Rita Lee, I had an idea: I’m going to win him over with Rita Lee! 

I started to write an anonymous letter to him every day with a phrase from a song by Rita, and sent it in the mail: “Pretty boy, just one look at you and I feel bewitched…”. The other day, “your eyes are simply beautiful…”. Within a week he discovered me and we started dating. 

Skip 33 years and I begin to write what I’ve been thinking, who I miss, about who I love and who made an impact on me … The past mixes with the present and the future. “And I don’t get lost, I find myself”. 

I always write about what’s going on, and this time I decided to share more than usual with only a few people. Am I going to share a diary with you? The insights I have in my time with my therapist? I don’t know it yet. Deep down, they are life stories that you could identify with. And you could have the desire to participate. How about it? 

Many partners have already participated in these projects with me, sometimes writing, sometimes with images … Evandro, Thompson, Renan, Claudia, Meire, Fabiano, Edmar. I even wondered if it would all be just about drawing… They are more like rough, but instant photographs. Fiction and reality, all in one. Everything mixes in time and narratives. I believe they will be able to inspire you, make you smile, cry … 

I want to share experiences with the world. Share identities with my friends. Loose thoughts. My purest intimacy. My associations. My troubled relationship with my mother … who hasn’t had one or will still have it? 

I want to re-visit some places that bring me such vivid memories, Epecuen, Bixiga, Egypt; my mother’s house in Riacho Grande… My current neighborhood. But I don’t want to go alone. You are invited to participate with me.

Capítulo primeiro

Que perigo querer ser a Madonna! 

Em 1991, na primeira vez que assisti ao documentário “Na cama com Madonna”, me lembro de estar sozinha na sala com o meu VHS, daqueles bem antigos que a tampa abria para cima, e pensar “eu sou curiosa pelas histórias das pessoas”. Não sabia nem por onde começar, mas o meu coração pulou e a cabeça borbulhou ideias. 

Que delícia querer ser a Madonna! Usava shorts com meia arrastão e fiquei loira. Hoje, angustiada no fim do dia, quero ser tantas pessoas. Que mulher eu sou? Eu sou branca, alta, cabelo liso, gordinha. Artista. 

No ateliê na Santa Cecília, instalações em construção. Evandro. Paulo Henrique. Julie. Capitalismo. Socialismo. E desenho todo dia. Tiro a roupa de artista e visto a roupa de outros artistas. Ponho meus anéis e tenho minhas unhas pintadas. O redor me faz ter ideias todo tempo e joga na minha cara as desigualdades desse país. Quando desenho e trabalho, tomo menos remédios. 

Falo tchau rápido pro Evandro, pego o meu carro, Uber ou metrô e venho para a minha casa ficar com meu filho, meu marido e meus bichos. Não me chamem de burguesa! Não me chamem de louca. Estou apenas construindo essa obra – e há 52 anos – e que agora é de vocês. 

Eu quero ser a Madonna. Eu quero ser a Tarsila. Eu quero ser a Lina. Eu quero ser a Djanira. Eu quero gostar de quem eu desenho. Eu quero ser amada. As vezes minha auto-estima fica baixa, mas sou bem exibida: performática, Instagram e cafona! 

Na infância eu queria ser miss, mas tinha várias cicatrizes… 

Yara Dewachter

Capítulo segundo

A primeira vez subi porque soltaram os fogos. 

Final de campeonato é sempre um terror. Os vizinhos começam cedo, assam a carne, muita cerveja, ouvem pagode mas terminam no funk. Gritam, xingam, choram e comemoram. Basta um começar e todos gritam também. Parecem cachorros na madrugada, sabe? Um late lá do alto da rua, o que está no quintal duas ruas abaixo responde, os pequeninos do apartamento aqui de cima não se aguentam e aí eu também dou minhas latidas. 

Ninguém sabe porque está latindo, nem o que fez com que tudo começasse. Mas isso não faz a menor diferença. 

Acontece o mesmo no dia de jogo. Final de campeonato então, sem comentários. E aí soltam os fogos. Eu subi pela primeira vez meio sem querer, num acesso de histeria mesmo. E depois não consegui descer. Morro de medo de altura. Até com as escadas tenho lá minhas dificuldades. Então eu subi e não consegui descer. Lati mais ainda, mais alto, mais estridente. Ninguém me ouviu. 

Fiquei lá andando de uma ponta à outra, um tempão. Foi quando ela apareceu na cozinha. O jogo já havia terminado. Os fogos ainda soavam lá fora, mas cada vez mais espaçados e distantes. Isso deu espaço para ouvirem meu desespero. Quando ela entrou no cozinha eu tremi. Um misto de alegria e de pânico. Pânico porque eu estava bem em cima da mesa! Um lugar meio que sagrado nessa casa: sempre enfeitada, sempre com frutas, onde todos se reúnem para almoçar todo domingo. E eu ali, com minhas patinhas que já haviam passeado até lá no lote vago do vizinho. 

Tremia de alegria e de pânico. Meu rabo não sabe se comportar nessas horas, parecia um helicóptero. Mas tudo isso foi só por um instante. Uma gargalhada me fez acreditar em um final feliz. Ela achou “que lindinha”, foi o que disse levando as mãos ao rosto. Chamou a família inteira, que estava discutindo e comemorando o fim do campeonato. Todos acharam “que gracinha” e “agora não consegue descer”! 

Fui saindo do pânico para a dúvida, da dúvida para a surpresa e da surpresa para a certeza. Daqui em diante, a mesa me pertencia também. 

Cláudia Barroso

Capítulo terceiro

Domingo de manhã, vou na feira com minha mãe. Estou aprendendo a escolher frutas e verduras. Aliás, sei fazer uma salada muito bem. Tomo garapa com pastel e voltamos para casa. Ao meio dia em ponto, meus tios e primos chegam para o almoço e trazem meus avós Alzira e Carlos. Vamos comer cannelloni de presunto com queijo e molho vermelho. Almoçamos quase tranquilamente. Falamos um pouco de futebol (todos palmeirenses menos eu e a Virgínia, minha prima).  

Na varanda, tomamos café e sorvete napolitano. Claro que o de chocolate acabou primeiro e o de morango sobrou, mas eu não me importo em comer o de morango.  

Minha casa é grande e meus primos e eu vamos brincar de esconde-esconde. Com tanto lugar disponível, resolvo me esconder atrás de um cachorro grandão de porcelana e, quando meu primo me acha, me assusto e quebro o bendito cachorro. Um barulhão. Fico aterrorizada. Minha mãe entra em casa e me encontra com o cachorrão caído e quebrado. Escutei apenas um “vai ter vingança”. Silêncio. 

Minha família foi embora e ainda assistimos o Fantástico. Então, no meio do programa ela levantou, pegou uma sacola e começou a colocar várias bonecas minhas dentro. Eu fiquei desesperada, afinal ali estavam todas minhas fantasias familiares, amorosas, sexuais. Na segunda-feira, deu minhas bonecas. O que eu podia fazer?  

Lembro de ir na casa da minha vizinha Fátima e  minha boneca estar lá sentada na cama dela, toda enfeitada. Minha boneca ruiva linda. Na cama de outra. Minha boneca Suzana na cama da Fátima. E eu, Yara, tomando café com a Fátima e vendo a Suzana sentada lá sozinha. Não bem sozinha, mas com um urso de pelúcia azul. Parece Toy Story, mas é a vida real. Foi a vida real. Quis muito a minha boneca de volta, mas não tive coragem de pedir. 

Corta a cena. Mais perto do presente, mas há alguns anos, estava na feira do Bixiga com o Evandro e fiquei louca quando vi uma boneca descabelada, pelada e ainda maquiada. Lembrei de todas as fantasias sexuais que eu tinha com minhas bonecas. Compro cinco na mesma hora a preço de liquidação. 

Penso, lembro, invento, levo o conjunto para o ateliê. Olho, pego, mexo, ponho uma lado a lado com a outra. Lentamente, jogo cera quente e aos poucos ela vai se cristalizando e preenchendo os espaços. As cinco bonecas ficam deitadas, lindas afogadas, juntas e plácidas. Presas para sempre perto de mim. Podem ficar tranquilas no ateliê e respirar. Só não podem se mexer. 

Yara Dewachter 

Capítulo quarto

Eu sempre sonhei muito, desde moleque. 
E sempre lembrei dos meus sonhos. 
Já tive caderninho de anotar ao lado da cama, já tive caderno de anotar longe da cama. 
Uma época eu anotava o que lembrava dos sonhos sempre no final da tarde, como num exercício surreal. 
Passei por todos os sonhos típicos freudianos, de cair, de sair na rua pelado, dos dentes caírem, de mastigar chiclete até a boca encher e dar desespero, de achar que meu tio era meu namorado, de sair na rua vestido mas descalço, todos esses sonhos. 
Mas tinha um sonho que eu sempre acordava desesperado. 
Não era um pesadelo, era um sonho que me deixava desesperado. Um sonho recorrente da minha infância, que eu sempre lembro dele com saudade. 
Pois é, saudade de sonho. 
Tem outro sonho que me dá saudade também, mas esse é saudade boa. 
Eu sonhava que estava em uma festa maravilhosa em um salão de um palácio europeu, em alguma época de um passado rico mas que também era em um futuro pobre. 
Nesse baile eu ia andando em meio às pessoas dançando e ia diminuindo de tamanho. 
E ninguém percebia isso. Ninguém nem me percebia. 
O legal desse sonho é que eu sentia alguma coisa no meu maxilar. Mas não no sonho, na vida real. 
Eu sonhava com o baile, sentia o treco no maxilar, estava dormindo, mas sabia o que estava acontecendo. 
Sempre tento ter esse sonho de novo. 
Difícil. 
Voltando ao sonho que me dava desespero. 
Eu sonhava que saía de casa e ia à casa dos meus primos, que ficava na rua de baixo da minha. 
Ia lá brincar. 
Chegava na casa, a porta estava aberta, eu entrava e não tinha ninguém dentro. 
Eu ia para a cozinha em direção a porta que dava para o quintal. 
Ao abrir a porta eu me via do outro lado esperando por mim mesmo. 
De. Ses. Pe. Ro. 

Fabiano Liporoni

Capítulo quinto

– Férias em família é tudo de bom! 

 Ele ouvia e sorria, mas já não sabia exatamente de onde vinha a voz animada e aguda que, talvez, nem estivesse se dirigindo a ele. Tentava concordar, acenando vagamente com a cabeça e olhando para a frente, para o mar.  

 – Quem me acompanha na batidinha? 

 As mulheres se riam. Ele pensava em galáxias. Gostava de “galáxias” desde criança. Não sabia se gostava da palavra porque gostava da ideia que ela representava, ou se gostava da ideia porque apreciava a palavra. Lembrava do nome das mais próximas da Via Láctea, aprendidas em um almanaque, “Curiosidades para Crânios!!!”, que já tinha ido pro lixo há muito tempo. Ou teria molhado em alguma enchente? 

 Galáxia Anã do Cão Maior, Corrente Estelar de Virgo, Galáxia Anã Elíptica de Sagitário, Grande e Pequena Nuvens de Magalhães… 

 Quando era criança achava que seria astronauta. Ou astrônomo. Ou piloto. Mas todo o conhecimento sobre o espaço celeste que havia entrado e ficado em sua cabeça não era muito maior do que isso. Tinha ficado motorista. 

 – Olha, olha a foto. Não vai olhar pro lado errado, hein?! 

 Ele também não sabia se era com ele. A cabeça dava voltas tentando lembrar o nome da estrela, como era mesmo, aquela estrela que brilha mais forte na constelação daquele gigante, como era mesmo, Órion? Um nome difícil, estrangeiro, nem sabia pronunciar direito. 

 – Ai, pisquei! Eu sempre saio com os olhos fechados! Outra, outra!  

 Betelgeuse. 
Sorriu. 
Clique. 

Thompson Loiola

Capítulo sexto

Quando era criança tinha problema de enxaqueca, por isso ficava bastante de cama, ficava desenhando. Toda criança desenha, eu sei, mas eu já fazia histórias de famílias. Também muitas fazem, mas eu gostava de ficar na cama desenhando. Não era triste, não. Depois que eu melhorava, ia para a rua brincar. 

O meu pai Ludovicus Gerardus Robertus Dewachter gostava de arte! Pintava e colecionava. Sabe esses “Família vende tudo”? Não perdia uma oportunidade e comprava lotes de quadros de famílias que estavam desmontando a casa. Decorava a nossa misturando tudo. Na sala de jantar do sítio em Valinhos, ele pintou uma parede vermelha e colocou uma enorme cabeça dourada de veado bem no centro. Não sei se era de gesso, só sei que eu era bem pequena e ficava hipnotizada por essa cabeça! O Ludovicus era muito bem humorado, kitsch e rococó. E também cheio de amantes! A minha mãe sofria muito. 

Quando ele estava fazendo um retrato meu, grande, ele morreu! Eu tinha cinco anos. Estava no colo dele assistindo Chacrinha (eu queria ser chacrete e tinha até bota). Minha mãe me deixou pintar por cima. Acredita? Ela não percebeu. Tenho saudades de como seria ter esse quadro. Só lembro do traço dele preto na tela branca, grande, em um cavalete num quartinho de bagunça. Era um quartinho de bagunça e de tesouros. Tinha um cofre e tintas Suvinil de várias cores já  com crostas que eu adorava mexer. Tinha também esqueletos de lagartixas e muitas, mas muitas ferramentas. Era meu esconderijo. 

Tenho saudades do que eu não vivi com o senhor Ludovicus Gerardus. 

Ele com seu robe de chambre comendo gorgonzola, me dando uns pedacinhos, que lembrança boa! Mas não fazia muito bem para saúde de um infartado… Ah! Ele tinha uns passarinhos lindos e exóticos numas gaiolas. Um dia fui dar comida e deixei escapar um. Nossa! Esse homem ficou bravo, viu? 

No dia 24 de dezembro de 2018, pendurei o único quadro dele que sobrou, na sala aqui de casa, junto com um trabalho do Duda Oliveira e um do Burle Marx. Embaixo, um monte de porta-retratos de boas lembranças. Eu também gosto de misturar as coisas. Gosto de misturar pessoas também. 

Quando era adolescente, juntei alguns amigos que amavam desenhar. O Davi, o Baixinho e eu pensamos em fazer um grafite no muro enorme lá de casa. Cada um imaginou o seu desenho, mas minha mãe não queria de me dar dinheiro para comprar os sprays, nem queria deixar o muro cor de areia. Esquisito. Tive que dar um jeito. Convenci a Dona Dinorah e o muro ficou um arraso! 

Yara Dewachter 

Capítulo sétimo

Acordei com o susto de uma mordida enorme sendo cravada na parte de trás da minha coxa – acho que essa parte do corpo nem tem nome. Urrei de dor, com a bunda para cima, na cama, ainda melada e quente. O resto do corpo calado e frio. Não conseguia ver o relógio porque estava escuro, certamente não passava das cinco da manhã. Não me mexi. Não me opus ao silêncio. 
 
Ninguém estava ali. 
 
Depois de tentar me convencer que não deveria ter medo, levantei com medo e fui até o banheiro. Tive que acender a luz e, no espelho, vi a marca da arcada completa. Na hora não soube identificar se aquilo era de gente ou de bicho, tampouco depois. Até pensei que aquela cicatriz poderia ser sensual. 
 
Não fui ao trabalho, não dei satisfações, não abri as janelas, não liguei para ninguém, não li meus e-mails. Resolvi almoçar e jantar em casa. Não fui nem ao mercado para buscar o creme de leite do strogonoffe e olha que eu odeio assim. 
 
Eu estava mordida. 
 
Pensei em perguntas, mas queria mesmo respostas. Cansei das perguntas. E é bom que eu fale a verdade: chega dessa história de aprender a fazer as perguntas certas. Eu não estava inteira e parte do que parte permanece. 
 
Foi ali que lembrei do Dirceu, um coleguinha de classe do primário. Sempre andávamos de mãos dadas no intervalo. Às sextas, ele me trazia um presente comestível. Na última vez que o vi, ele me deu alguma coisa (tanto faz o que, realmente não importa), desembalei e comecei a comer. Ele quis um pedaço, eu não dei e ele me mordeu. Soltei a mão dele. De olhos fechados, chorei alto e, quando abri, Dirceu não estava mais lá. 
 
Uns oito anos depois desse acontecimento na escolinha, eu já era quase adolescente e aceitei o convite do meu pai para irmos pescar. No meio da trilha, já quase na lagoa, eu que ia liderando o caminho ouvi um rosnado vindo do meio das árvores em minha direção. Antes de conseguir suar frio, corri em direção ao meu pai. Agarrei sua mão e pulei em seu colo tirando meus pés do chão, mas duas presas acertaram o meu tornozelo. 
 
Não foi difícil me livrar dessas duas memórias, mas quase afoguei quando pensei que logo seria noite e eu perderia a vigília. Coloquei o pijama, escovei os dentes, passei perfume e, já deitada, agarrei firme o travesseiro. A situação pedia postura: do jeito que vier, morre. Adormecendo, soltei as mãos do travesseiro. 
 
No meio da noite, senti um vento próximo a mim e, sem tempo de pensar, saltei na direção do perigo. Nos mordemos ao mesmo tempo. 
Qual é o prazer entre a mordida dada e a mordida recebida? 

Renan Quevedo

Capítulo oitavo

Cores saturadas. Cenas enigmáticas, ou inexplicáveis. Pelo menos à primeira vista. Planos não convencionais. 
Os filmes e suas possibilidades de infinitos universos me pegaram desde cedo. Me lembro das sessões de Tom & Jerry em algum cinema da Augusta aos sábados ou domingos de manhã. Meu pai levava eu e meus irmãos. A malandragem do rato e a rabugice do gato naquela telona ao lado do meu pai são inesquecíveis. 
Isso me levou a conhecer todos os meus heróis (e anti heróis) pela infância afora. Hanna Barbera e tantos outros estúdios que produziram muitos desenhos animados incríveis. A evolução natural foram as séries fantásticas ou de comédia. Batman e Robin (na versão P&B com os splashes de “sock” e “pow” nas cenas de luta), Viagem ao Fundo do Mar, Jornada nas Estrelas, Terra de Gigantes, o Tunel do Tempo, Agente 86. Passava as manhãs ou tardes viajando nestes mundos todos. 

Então a coisa se modernizou. Acho que um dos primeiros filmes em VHS que assisti foi da locadora 2001. Uma Odisséia no Espaço na casa de um tio que estava sempre à frente do tempo. Enlouqueci com o Kubrick e com a possibilidade de poder escolher o que assistir em casa quando eu quisesse. E foi assim que pedi pro meu pai ficar sócio da Free Time, locadora de filmes perto de casa. Eu devia ter uns 12 anos e me lembro que pra ser sócio precisava pagar uma “jóia”. Eu achei que não ia rolar. Devia ser muito dinheiro pra ele na época. Mas rolou. 

Eram os tempos em que a locadora fazia cópias piratas do que quisesse alugar. Tudo numa boa. Propriedade intelectual só veio bem depois. Foi aí que conheci o primeiro Sexta feira 13. Por alguma razão o filme que mais tenho na lembrança dessa época. Talvez só pelo medo do Jason mesmo. 

O VHS virou DVD, Blue Ray. Algumas casas tiveram o Laser disc, aquela bolachona que tinha capacidade de armazenagem suficiente para shows em alta definição. Eu achava que aquilo era grande demais, caro demais e tinha títulos de menos. 

E o que falar do streaming? Tem gente que gosta. Outros dizem que não é cinema. Eu adoro! Na telona eu vou assistir o que tiver passando na semana. Eventualmente damos aquela esticada pra tomar um gin tônica e falar da vida. No streaming eu tenho acesso a toda a história do cinema! Sou muito fã dos streaming que fazem curadorias com épocas, atores, diretores ou temas específicos. São aulas infinitas do melhor que já se filmou pelo mundo todo. 

Casei com uma fã de cinema. Assim continuei minhas aventuras. Assistir um filme na Augusta (ela aqui outra vez) ou na Paulista é um de nossos programas favoritos. 

Ricardo Eid Philipp

Capítulo nono

Imerso 
 
Adentrar sempre foi um verbo desafiador. E esse foi o desafio aceito por nós, desde o primeiro encontro. 
Sua intensidade de estrela cadente dava-me um medo abissal; temia perdê-lo na próxima esquina da vida. 
Ainda que minha vontade fosse te prender nos meus braços, sabia que pássaros livres como você não entram em gaiolas. 
Talvez hoje veja como presságio aquela primeira vez. 
Não tenho costume de transpirar tanto, nem você, mas os lençóis tiveram que ser trocados após aquele longo encontro, onde lambemos cada milímetro de pele um do outro. 
Enquanto mordiscava seu pescoço, dentro daquela maresia e do movimento de água, assistia nossa dança, via pequenas gotículas que pulavam no ar ante o atrito de nossos corpos e do movimento frenético dos nossos quadris. Luz, sombra, flashes e os alucinantes gemidos que me deixavam ainda mais rígido, com mais gana de seguir adentrando cada vez mais fundo, sabendo que, em breve você, viraria o jogo e também se aprofundaria em mim. 
Ficamos assim, afogados um no outro, imersos completamente. 
Apesar do desejo latente tínhamos alguns desencontros. Você era intenso em tudo, seu gênio impetuoso era difícil de acompanhar. Eu já não era um menino e fazia vista grossa ante seus voos suspeitos e seus sumiços. 
Eu também fazia um ar prepotente, dava uns olhares de James Dean a qualquer serviçal ou conhecido na sua frente, só pra te manter esperto. Você não disfarçava a insegurança e eu ridicularizava a situação. Era teatro, teatro apenas! Ninguém despertava em mim aquele desejo que só você me proporcionava. 
Numa noite de loucura, de bebida e amigos, alguém trouxe um cavalo. Eu tive medo, confesso! O álcool já havia tirado nossas rédeas e seria impossível impedi-lo. 
Fui contigo até onde pude, mas tua pupila dilatou demais, a brincadeira ficou constante demais, a velocidade era frenética demais, soltei sua mão. 
Você pegou seu cavalo branco, me disse que estava no controle e cavalgou por meses sozinho, naquele ar seco, levantando poeira, até que te perdi naquela névoa branca. 
Até hoje tenho esse sonho: eu sozinho, no frio, te procurando sem sucesso. 
Era impossível administrar aquilo. Fiz minha mala, esperei sua mãe e lhe entreguei as chaves. Chorei com ela, abraçados choramos muito. 
Você jamais me perdoaria por ter te delatado e por isso seria definitivo. 
Me fiz difícil de achar e talvez você nunca tenha me procurado, tenho certeza disso. 
Os anos se passaram entre clínicas, altos e baixos. Preferi não saber de ti, mas era inevitável algum conhecido soltar um fragmento seu. 
Soube que você convenceu que o melhor seria ir para a Europa, convenceu a todos, você sempre foi ótimo nisso. E você foi, e um dia pra sempre… 
Hoje é um dia de sol, tem uma piscina bonita no pátio de casa. 
Eu tenho o estranho hábito de mergulhar e, embaixo  d´agua, segurar a respiração ao máximo. Quando beiro o afogamento vejo seu rosto, a água me abraça e flutuo como dentro do seu abraço molhado e inesquecível. Dura pouco, mas é ali que te encontro: Imerso, intenso, molhado. 

Leandro Flores

Capítulo décimo

Eu tenho 24 anos, moro em Piatã, interior da Bahia, no mesmo lugar há 3 anos. Não envelheço, não durmo, não como. Não consigo sair daqui e nem quero. Aqui é um sossego. Só os cachorros e gatos brincam comigo. Sinto saudades de vários amigos que pararam de me visitar há uns dois anos. As vezes saio de madrugada e vejo eles bebendo no bar, mas passo longe, não consigo e nem sei se quero ouvir o que eles falam. Minha mãe me visita todo domingo. Um dos meus irmãos sempre trás ela depois do almoço.

Ela não chora… Eu sinto falta do arroz e feijão com leitão que ela cozinha maravilhosamente, me dá água na boca. E da rapadura de amendoim que a minha avó Neguinha sabe fazer. Qualquer hora minha avó vem morar comigo, mas nem espero que seja logo. Tem muita gente da minha idade aqui.

Todo carnaval é a mesma coisa, saímos de uma cidade para outra já bêbados e achamos que nada vai acontecer. Então vem a carreta do outro lado, com um
motorista virado que precisa chegar em algum lugar urgente, não prestamos atenção e pum. Foi-se!

Do meu carro só morri eu na hora, o Otávio morreu três meses depois, ele também mora aqui. Somos bem próximos, nunca namoramos, rolam uns olhares às
vezes. Eu continuo sempre com o vestidinho colorido e all star amarelo. Meu cabelo cresceu no primeiro ano, mas agora parou. Tem uma turma do rock que morreu o ano passado, uma banda que ia tocar em Vitória da Conquista e bateu o ônibus. Eles vivem brigando, a que estava dirigindo nunca se perdoou, os outros já entenderam. Eles sempre tocam e ensaiam as mesmas músicas. As que iam fazer no show. Bem nostálgico.

Eu tenho nostalgia, essa é a palavra certa? Do que eu poderia viver. Eu queria me formar em psicologia, estava no primeiro ano. Quando chega um morador novo eu tento usar o pouco que sei para confortar.

Sempre imaginei que íamos usar roupas brancas e viver num gramado lindo, mas ainda não rolou. O meu cachorro de quando eu era viva se mudou para cá, já veio no dia do meu enterro. Ele vai para casa, come, passeia, mas vem dormir aqui. Ele fica do lado do meu túmulo, super fofo. Converso com ele, brinco, jogo pauzinho. Adoro! Já está ficando velhinho, mas continua firme e forte. Ele se chama Milou, como o desenho do Tin-tin, que eu assistia sem parar quando era criança.

Às vezes ia na minha antiga casa, via meus irmãos envelhecendo, cuidando da minha mãe. Eu não vou mais lá, dá um vazio, uma saudade que vira alegria quando vejo eles vivendo e tocando a vida, mas de novo vem uma saudade estranha. Prefiro ficar aqui no cemitério mesmo… é só a morte continuando pacata e rotineira.

 Yara Dewachter

Capítulo décimo primeiro

Meu casamento com Alexandre foi azul. Aliás, falando em azul, Alexandre, foi sempre uma pessoa meio conservadora, então pra ele, “menino é azul, menina é rosa”. Nossa, que vergonha. Mas é verdade. Vergonha em falar que me dei bem com ele, com alguém que pensa assim, tantos anos. Mas foi uma paz essa relação. Tudo que eu queria, Alexandre resolvia. Ele sempre se adaptando a mim, mesmo sem entender um pingo conceitualmente. Era um gentleman, afetuoso, me respeitava mesmo. Me sentia valorizada, às vezes até demais. Desequilibrado de algum jeito, mas ainda assim, um azul celeste, uma paz…

Mas aí amiga, a surpresa veio quando a gente entrou na história do sexo. Ihhh menina… Como é que eu explico? Nem é tão difícil assim, nem tem tanto pra explicar se é que você me entende… Fiquei com aperto no coração a primeira vez que vi. Com dó, pode falar isso? Ele simplesmente não tinha pinto! Não tinha nada lá. Era zerado mesmo. Nossa, que confuso isso para mim. Enquanto no sexo até encontramos outros jeitos para transar, mas menina, me fazia falta um pau de verdade dentro de mim, poxa!

Como que a gente nunca falou sobre isso antes? Ficava tentando entender como alguém passa a vida inteira com uma questão dessas, simplesmente um homem sem pinto, e não fala nada. Como que ele não apresenta o assunto alguma hora antes da gente ficar pelado? Como que finge que não tem nada demais, tá tudo certo, normal, dentro do padrão? Virou o elefante branco da relação.

A gente era todo sorrisos na hora de tomar um sorvete, todos meigos no cinema, mas no fundo, pra mim, sempre ficava lá a questão do Alexandre, o Homem-Não-Pinto. Continuamos casados por um tempo, mas pouco a pouco, o “não ter” ou o “não falar sobre” começou a me incomodar. Quando eu tentava trazer o assunto a tona, vixi, Alexandre voltava para o seu mundo tradicional, e ficava puto comigo. Evitava o assunto que nem homem que ainda acha que a própria mãe é virgem, coitado. Pra mim não dá, me irrita, me deixa louca. A gente começou a brigar e a paz que tínhamos foi indo embora.

Eventualmente, voltei a enxergar nosso azul, mas dessa vez veio como um azul triste, puxando pro roxo, mais escuro… Um azul diferente do que era no começo, mas ainda azul. Nos separamos e Alexandre, o Homem-Não-Pinto, tocou sua vida e eu fui seguir com a minha. Casos, namoros e afins, casei de novo até, mas nunca esqueci. E confesso que até hoje ainda não parei de me perguntar, “Alexandre, como é que você faz xixi?!”

Amanda Ferreira

Capítulo décimo segundo

– Oxênte, menina, que atraso é esse? Parece aperreada? É não?  
– É Paschoal! Aquele abiscoitado. Veio abusando de mim, acochando mesmo. Sou de engabelar, não. Peguei um cotoco e sentei-lhe nos cornos. Virou um bafafá. A Nenzinha, aquela caritó irmã dele, cabra enxerida que só, veio em defesa. Ah. Não sou da patuscada não, não trato com quenga. Não lhe torei a cara porque tava avezada. E que tu tava me esperando.  
– Muler, tu tá com a bexiga lisa que só! Hahaha Tu tá estribada e empiriquitada por demais ultimamente, os homens vão pelejar. Tu tá um piteuzinho!  
– Vixi, sai prá lá . Tá mangando, tá?
Eu sou massa mesmo, mas não é triscar não, visse?!  
– Ah muler, precisa de carão não! Foi mal. Vamos pro nosso fiteiro é já. Hoje vou dar o grau que a mundiça tá grande e a grana tá curta.  
– Ó a macaxeira! Ó o cavo-da-Índia! Vai aí uma maiota, painho? 

Claudia Barroso 

Capítulo décimo terceiro

Algumas das (muitas) coisas que não consigo fazer: fumar, bordar, fingir simpatia, mascarar a saudade, terminar algo que começo, parar de chorar quando me pedem para parar, ser poeticamente correto, ser poeticamente correto, me basear nessa tal de coerência.  

Ter certeza de que quero filhos, lembrar do que me falaram ontem, não ter medo de perder.  

Montar planilhas, alimentar planilhas, analisar planilhas, entender planilhas. Me expressar através delas. Acho que odeio planilhas.  

Dias e noites organizados, raciocínios lógicos, não perder coisas. Não perder pessoas. Nunca aceitar que me digam o que fazer.  

Ter firmeza, ter foco, ser estrategista, não ter medo de parecer menina. Não ter medo de ter medo de parecer menina. E não menos autêntico.  

Falar sem gaguejar diante de um argumento importante, tropeçar em momento em que estou tentando ser sexy. Conseguir ser sexy. O que é ser sexy?  

Comer sem sentir culpa. Não sentir culpa. Gritar, quando for preciso. Sair de cena, quando for preciso. Não ter medo da palavra abandono. Escrever como quem vive. Escrever bem quando me pedem para escrever. Escrever rápido quando me pedem pra escrever. Escrever. 

Saber a hora de partir. Partir-me em pedaços, quando for preciso. 

Valmir Lins 

Capítulo décimo quarto

Acordou e não se sentiu cansada. 
No café da manhã, sobrou três pães e ainda teve leite pra Laika. 
Deu tempo de estender os lençóis, endireitar os tapetes de crochê da sala, tirar a mancha do molho de salsicha feita com muito capricho pelo Juninho na toalha de mesa, levar a Maria Vitória na UPA e pegar o terceiro ônibus antes das 8h10 daquela segunda-feira. Aliás, foi difícil acreditar que o ônibus chegou no ponto na mesma hora. Não foi nem preciso esperar. 
Por falar em ônibus, a catraca estava quebrada e todos passaram de graça. Deu pra sentar espaçado, sem ficar um por cima do outro, e a Bete uma relâmpago que brotou na condução, deu a dica que a Barateira da 17 de abril estava com 70% desconto em todos os sutiãs até o final do dia. 
Com três horas de atraso, envergonhada, chegou no emprego, mas ninguém reclamou – inclusive perguntaram se não queria tirar uma folga. Imagina. Recusou e procurou o que fazer mesmo com a casa limpa, a mesa do café já arrumada e a roupa passada. Dona Helga a lembrou que poderia adiantar o almoço. Ótimo, mas era só esquentar. 
O tédio custou dar meio dia para servir a comida e, depois do almoço, lavou devagar a louça com medo de ficar sem ter o que fazer. Dona Helga disse que não era preciso se preocupar com uma casa em ordem e a dispensou pelo resto do dia. 
Deu tempo de correr na Barateira. Graças a Deus! E a Vivi, a atendente preferida, deixou utilizar o provador. Tava tão barato que levou dois por 3,70. Agora teria três. 
Vitão colocou crédito no celular e ligou oferecendo carona de volta para casa. Foram conversando sobre a vida e foi bom. Estava feliz com uma gorjeta extra de um carreto que surgiu de última hora e pararam no Ligeirinho Tem de Tudo. O locutor Valdir anunciava “Aniversário do Mercadinho – show de ofertas para toda a família”. E era mesmo. Pela primeira vez na vida, a mortadela defumada estava mais em conta que o apresuntado e ia ser a janta dos meninos. Vitão já tinha deixado descongelar os quatros bifes de fígado. Era só adicionar o resto da moela com farinha, lavar meia dúzia de folhas de alface e eles estavam feitos. Com sorte ainda tinha um tomate na gaveta. 
Sem pressa, comeram e sentaram adiantados pra ver o jornal. Depois veio a novela e retomou o crochê que havia prometido para a Cleide merendeira. Era batizado da filha dela no domingo e o vestidinho iria ficar pronto a tempo. Naquela hora, nenhuma conta atrasada a fez errar o ponto das agulhas. Puxou um banquinho na beira da calçada e notou que a prefeitura finalmente havia trocado a lâmpada do único poste da rua. A Ruth e a Elvira acenaram do outro lado. Deu pra ver a Dona Nevinha no portão e abanou a mão também. A Cida veio até a porta para contar que o Seu Álvaro tinha saído do SUS e aproveitou para oferecer o último número na rifa do frango que correria em 10 minutos. O número era o zero. Não era bom. Não ia dar. Mas fez fé esperando. 
E deu. 
Sem acreditar na alegria, foi pra cama dormir e, feliz, pegou no sono. 
Naquele dia, não viveu. 

Renan Quevedo 

Capítulo décimo quinto

Numa manhã de segunda-feira, toca o telefone e é a Ana, empregada da minha mãe: “sua mãe piorou muito, não está falando coisa com coisa e não quer levantar para tomar café”. Entrei no carro e fui direto para a casa dela. A Av. Bandeirantes parada como eu detesto essa avenida! Fui lembrando quantas vezes fiz esse caminho desde que entrei na faculdade até me mudar para São Paulo e depois para ir visitá-la.  
 
Estacionei na frente da casa dela. Um portão de alumínio e um muro bege. Aquela casa tinha se tornado uma fortaleza de uma mulher muito isolada e seus cachorros. Eles começam a latir, eram 14. Vejo a Ana e pergunto automaticamente: “Eles já comeram?” Passei pelo mesmo piso da garagem que costumava brincar no sabão e olhei a mesma parede onde fazia paredão de vôlei nas tardes depois da lição. Vi o lugar onde ficava o telefone que eu ficava horas intermináveis com meus amigos, João, Alberto, Joel e Adriano, ou com possíveis paquerinhas.  

Olhei o corredor agora pintado de um verde clarinho, percebi um enfeite em cada janela. Uma Nefertiti de gesso, um papai-noel, um gatinho de porcelana e um galo português. O corredor era, por sinal, bem comprido e separava o meu quarto da cozinha. Jantávamos na cozinha enquanto conversávamos sobre astrologia, buraco negro ou sobre alguma matéria da revista Seleções. Depois do jantar eu ia para o meu quarto e tinha que atravessar o bendito corredor. Era escuro e como eu morria de medo, ia correndo. Já no quarto, ligava o abajur de Nossa Senhora da Aparecida e me enfiava na cama. Tenho pavor de fantasma, do meu pai aparecer e me contar algum segredo. Medo!  
 
Entrei no quarto da minha mãe e senti um cheiro úmido. As paredes descascadas, o armário embutido de cerejeira, a cama sem lençol e vários cachorros em cima. Tinha também uma mancha grande no colchão. Ela estava de camisola de malha bege e dormia. Quando os cachorros latiram, ela abriu os olhos sonolenta. Começo a conversar com ela, pedindo para se trocar. Ela responde: “não vou a lugar nenhum… me deixe morrer aqui” e começa a rezar a Ave Maria. Pego algumas roupas, calcinhas, pijama, um tênis que ainda estava na caixa, que eu tinha dado. Ela percebe o movimento e começa a gritar. Me olha com um olhar brava. 
 
Já no carro, ela olhou para a estrada. Quieta. Foi a última vez que ela viu a Via Anchieta. Ainda bem que estava sol. Um dia lindo. Passamos pela represa, onde meses depois voltei para jogar suas cinzas. Ela morou lá para sempre. 
 
Lembro dela todos os dias. Dona Dinorah! 
 

 Yara Dewachter

Capítulo décimo sexto

O dia que sonhei com David Bowie 

Estava num píer em alguma praia do litoral Norte de São Paulo. Atrás de mim, uma majestosa montanha verde da Serra do Mar e, ao meu lado, David Bowie! Debruçados no guarda-corpo de madeira, ambos apreciávamos o oceano extremamente azul.

A brisa fresca do mar movimentava a camisa de linho branca de Bowie e um cabelo loiro que lembrava o do filme “Fome de Viver”, em que ele atuou com Catherine Deneuve. 

– E aí? Perguntei, com uma estranha familiaridade, como se já o conhecesse faz tempo. 

– Tranquilo, respondeu Bowie, com um ar despreocupado, quase blasé. 

Os olhos bicolores do “camaleão do rock” esboçaram um sorriso. Ele se voltou para mim e disse: 

– Eu já experimentei de tudo… 

Eu não sabia o que dizer. Fiquei quieto e acenei com a cabeça em sinal de compreensão.  Um silêncio confortável imperava. Só ondas, pássaros e o vento faziam barulho ali.  Foi quando vimos uma pessoa se afogando a uns cem metros de nós. Estava se debatendo e pedia por socorro. Era uma mulher. Bowie se virou para mim com uma expressão incrédula e soltou uma das frases mais sem sentido que eu já ouvi na minha vida: 

– Eu não sei quem é essa mulher, mas a conheço muito bem! 

Em seguida, pulou na água e nadou até a pessoa num piscar de olhos, colocou os braços em volta do corpo e veio nadando até o píer. Foi tudo tão rápido que me limitei a observar o resgate e apenas ajudei Bowie a erguer a mulher até o deck.  

Curiosamente, ambos saíram do mar secos: Bowie, impecável com sua camisa de linho, e a moça, uma negra alta e linda com vestido e cabelos esvoaçantes que sorria para mim. 

– Essa é minha esposa, Iman, disse David Bowie. 

E foram caminhando do píer para a praia até sumirem. 

Valentina Figuerola & Daniel Eid Tucci

Capítulo décimo sétimo

Que gracinha!  
Oi! Você nasceu! Que gracinha! Princesa do papai, boneca da mamãe. 
Já está sentando? Já nasceu o primeiro dentinho? Que gracinha! 
Nossa! Já está engatinhando? Com quantos anos andou? E já está falando? O que fala? Já está na escolinha, que gracinha! Já sabe ler? Quando vai se formar? Já sabe o que quer ser quando crescer? Não sabe? 

Que gracinha, ainda tem tempo.  Já menstruou? Já tem namorado? Já beijou? Já vai fazer vestibular? Já transou? Já está estagiando? Que gracinha! Quando se forma?  Quando fica noiva? Quando se casa? E a lua-de-mel?  Já foi efetivada? Que gracinha! Quando vem o primeiro filho? E o segundo? E quando virá o próximo? Não virá? Que gracinha! Ah! Ainda está pensando? Que gracinha!  

Silêncio. Silêncio . Que silêncio .  

Ninguém pergunta mais. Não querem saber? Não querem saber que minha menstruação está desregulada há uns dois anos? Não querem saber quando irá parar?  
Ninguém pergunta se sinto calores noturnos, se durmo bem ou se essa noite nem dormi? 

Alguém aí quer saber se ainda transo? Se tenho desejo, se estou feliz, satisfeita? Se ainda beijo na boca?  Será que não ouvi ou não perguntaram quando irei parar de trabalhar? Perguntaram por que  trabalho tanto? Porque trabalho nesse emprego? Perguntaram se quero mudar? Ah! Acho que ouvi um “quando irá se aposentar?” Mas foi só o que perguntaram.  

Alguém quis saber da reposição hormonal? Quais saber se cabelo caiu ou se vagina secou? Que gracinha, ninguém teve interesse, ninguém teve coragem.  Quando vou diminuir o ritmo, alguém quer saber?  E sobre os meus dentes? Que gracinha, será que caem?  Caem! As bochechas caem, a bunda cai, a pálpebra cai.  Ninguém vai perguntar o que vou fazer agora? O que vou ser quando envelhecer?  Alguém perguntou se aguento ser quem sou agora que envelheci? Já envelheci!

Não sei quem sou.  Ninguém perguntou como me sinto, ninguém falou do cabelo branco, da barriga. Será que ainda tenho apetite sexual? Não dá para saber, ninguém perguntou.  Alguém quer saber se sou feliz? Se fui feliz?  Ninguém perguntou por planos, sonhos, desejos, possibilidades.

Ninguém perguntou. Tá velhinha, que gracinha! O que você é agora que está velhinha?  Não sabe? Que pena, não dá mais tempo. 

Cláudia Barroso

Capítulo décimo oitavo

Nunca pensei em me casar, muito menos de noiva. Queria celebrar! Celebrar que tinha encontrado um amor maravilhoso. Combinava comigo comemorar! 
Sempre fui aparecida! Já comecei a usar salto alto com 14 anos. Cheguei um dia com uma caixa de sapato e coloquei em frente da minha mãe que estava costurando na sala. “mãe, a partir de amanhã só vou usar salto alto para ir para a escola”. O meu padrasto chegou bem nessa hora, bêbadoe começou a falar que todo mundo me chamava de viadinho, bichinha… minha mãe deu um basta! Nessa altura já estava sentado no sofá com um medo danado. Ela falou que eu podia ser quem eu quisesse e gostar de quem eu quisesse e para ele não se meter… Maravilhosa! Passou a noite toda sentada na mesa da cozinha tomando café… De manhã sai de salto alto para a rua.
O meu primeiro, ainda na minha cidade Jales, tinha 16 anos e beijei a Vanessa atrás da igreja, em dia de quermesse. Foi um beijo cortante. Línguas ávidas. Por que meu primeiro beijo foi com uma menina? Hoje em dia Vanessa é gay também. Meu segundo beijo já foi em São Paulo numa boate gay.  
Consegui emprego numa loja da 25, como vendedora e desenhista dos vestidos. Todo mundo querendo modelos verdes e azuis com muita renda! Adoro! Se já apanhei? Se já me xingaram? Me ameaçaram? Muito! Já me empurraram na Ladeira Porto Geral, fui parar no hospital, mas peguei meu sapato, não perdi não! 
Sempre desenhei e aprendi a costurar com a minha mãe, vivi embaixo da máquina dela, fazia até lição lá! Ao mesmo tempo que trabalhava na loja, fui fazendo curso de teatro. Me encontrei.
Ele estava lá! Lindo, alto, decidido e bem resolvido! Cabelos cacheados. Usava shorts de boxeador dourado, o resto tudo preto, uma blusa bem justa, mostrava a barriga de tanquinho. A diretora colocou a gente para fazer uma cena amorosa, senti um frio na barriga, parecia que eu ia desmaiar! Beijamos e esquentou demais! Saímos do ensaio direto para minha casa, que é bem em frente ao Minhocão. Ele nunca mais dormiu em outro lugar!  
Eu cada vez mais me sentindo mulher, sempre com vestidos e salto, cabelo comprido e muita make. Pensei, pensei, senti, senti, conversei muito com ele e com minha mãe e comecei a tomar os hormônios. Muito feliz com essa decisão! Ele me convidou para jantar no “Le Casserole”. Amei! Chegaram umas flores na mesa com uma caixinha! E adivinha? Ele joelhou e… quer casar comigo? Bem na semana que eu comecei a tomar os hormônios! Sabe história de amor que vai dando certo? Agora já temos dois gatos e tudo! Até minha avó e meu ex-padrasto vieram na festa. Eu continuo com o teatro e a costura. E continuamos felizes para sempre? 

Yara Dewacheter 

Capítulo décimo nono

Feito a mão  

Eu deveria ter dito que sim. 

Que aceitava, que valia a pena, que com todos os defeitos e falhas ainda era bom,  que conseguiríamos superar se tentássemos mais um pouco.  

Eu deveria ter te abraçado. 

Ficado em silêncio, deixado você se acalmar, chorar, me batido, se necessário. 

Olhei meu rosto no reflexo do pára-brisa, e no silêncio do carro, senti frio. Percebi que o ar-condicionado estava no máximo. Tudo condicionado. Eu me condicionei. Talvez seja isso. 

Entre quadrados e círculos, auqelas formas pareciam olhos e me enxergavam, se aproximavam de mim, o vendedor com seus óculos escuros me olhava também.  

Feito a mão, ele disse. 

Não entendi.  

A toalha, ele sorriu. 

Não sei quanto tempo fiquei olhando para ele. Entre todas as peculiaridades daquela figura que segurava o tecido estampado, olhei para suas mãos.  

Esquecemos das mãos.  

Esqueci das suas e não fiz questão de lembrar-te das minhas.  

As mãos calejadas e secas do vendedor seguravam a toalha, as minhas o volante, e a sua segurava a caneta que escreveu seu nome selando o nosso fim. 

A buzina do carro de trás me chamou para a realidade. A avenida precisava seguir o seu fluxo. Toquei a marcha procurando pelo retrovisor vestígios do vendedor que evaporou, como se nunca houvera existido. 

Penso em todas as palavras que eu não disse, mas deveria ter dito. 

Leandro Flores 

Capítulo vigésimo

Já era noite e estava deitada pronta para dormir, uma chuva horrorosa caía e eu comecei a ouvir um chorinho bem baixinho de um animalzinho. Não aguentei e levantei. Sai no jardim para ouvir de onde vinha o som. Quando abri o portãozinho lateral da minha casa que dava para a calçada, lá estava ela: magrela, sem nenhum pelo no corpo e gelada.  Sempre pensei que os cretinos que largam os cachorros na calada da noite na rua deveriam morrer, ou queimar no inferno (mas tem um problema, não acredito em inferno). Peguei a Zig Zig!  

Sempre tínhamos a mistura de enxofre com óleo de cozinha pronta e passei nela toda. Um cheiro desgraçado! O tratamento deu certo, ela ficou toda peludinha. Todo mundo dizia que eu ia pegar sarna, nunca peguei. Tentei deixar ela numa casinha e fui dormir, mas ela não parava de chorar, levei ela para minha cama com enxofre e tudo (dormiu comigo até morrer de diabetes, doze anos depois). Minha mão ficou louca com o meu quarto todo empesteado de enxofre. 

Tem mais um monte de histórias que não caberiam nesse texto, mas preciso falar do Bart, meu primeiro cachorro com o Ricardo. Um Weimaraner, o último da ninhada, lindo e uma verdadeira peste! Foi operado seis vezes de tanto comer porcaria: pote de requeijão, manga, meia calça, e até uma bolinha de plástico com pininhos que ficaram enganchados no estômago. Santo Renato, o veterinário que operou ele todas as vezes! Bart foi a primeira palavra que meu filho falou! 

Tivemos a Sininho, uma cachorra encontrada na rua. A Sininho estava presa num arame farpado na Via Anchieta. Ela mancava, era cardíaca, e ainda assim, não perdia o astral! Nossas duas gatas, a Kaká e a Gisele, têm individualidades que eu não estava acostumada. Agora gosto! A Kaká, chutada na rua filhotinha, dorme toda noite na barriga do Ricardo e não tem um olho. Enxerga passarinho e barata como nenhuma outra. A Giselle é como a modelo: magra, alta, charmosa e vive desfilando pela casa. Ah! Atualmente temos o Nikko. E estou pensando em pegar duas galinhas e um papagaio, mas isso é outra história… 

Yara Dewachter

Capítulo vigésimo primeiro

Joker 

Falam de mim. 
Dizem tanta coisa.
Parece que minha imagem se presta a isso. 
Ela está à disposição de todos, de qualquer um.  
Talvez eu tenha uma culpa aí.  
Eu danço, me mostro, me exibo, chamo sua atenção.  
Você olha! 
às vezes sou Joker, às vezes Arthur.  
Uma parte de mim contra outra parte de mim.  

Por diversão te coloco entre escolhas impossíveis!!!  
Você descobre que não estamos em lados tão opostos.  
Te torno mais sábio.  
Meus amigos? Arlequina, Charada, Pinguim, Duas Caras, você! 
Minha morada? Arkham. Mas não tenho tanta certeza.  

Sou vilão, sou tudo ou nada.  
Posso ser alegria e também tristeza.  
Transito entre a ignorância e a sabedoria; depende de quem vê. 

Às vezes sou Fleck; uma partícula, uma mancha. 
Mas ser  Coringa é que me dá um lugar ao mundo.  
Sou o palhaço, o assassino, o jogo, a piada.  
Rio quando vejo o seu medo.  
Faço graça para te confundir. 
Me fortaleço na sua loucura. 

Qual é o meu propósito?  
O que quero de você?  
Nada. 
É você que me contém. 
O engraçado é que você não sabe!!! 
Mas lembre-se: talvez eu não seja um narrador confiável.                                       

Claudia Barroso 

Capítulo vigésimo segundo

Tenho uma relação profunda com as músicas do Elton. Tive uma cachorra chamada Nikita, uma fita cassete com Sacrifice, pintei um quadro com cores do espaço ouvindo Rocket man. Fugi com o namorado depois que ouvi You´ve gotta love someone, anos depois me casei com ele, decorei o quarto do nosso filho com o tema Rei leão, ao som de Can you feel the love tonight.  Amo compositores! Sinto que o Elton John compõe, como se o instrumento nascera de seu peito, as palavras, as notas. Imagino assim. 
Talvez por não ter vivido isso, ter casado e engravidado cedo. Ele era músico. Acho que a música aprimora os sentidos. Um conselho: Não morra sem transar com um músico, eles são ótimos!  
-Você já vai? – Me perguntou ele.  
-Sim. – Respondi. 
-Você não vai voltar mais, né? 
-Não. 
-Eu acho que eu já sabia, disse ele. Espera! Ouve essa música, é pra você!  
Ele tocou Your Song, enquanto as lágrimas prismando-me a visão, misturavam a luz avermelhada com o dorso sem camisa, o violão, seus olhos de mel inesquecíveis, o quarto e aquela canção linda, que falava de tudo o que nunca viveríamos juntos. Meu coração parecia que ia sair pela boca! Ele terminou a música, me abraçou, nos beijamos, transamos. Fizemos tudo em silêncio. Depois da música nada mais deveria ser dito, nada. Tudo seria pequeno demais. Me vesti, beijei sua testa, peguei minha bolsa e nunca mais voltei. 

Leandro Flores

Capítulo vigésimo terceiro

Querida Rita Lee, 

Aqui quem escreve é a sua fã Yara. Te escrevo porque você faz muito parte de todas as fases da minha história! “Levava uma vida sossegada”.  
A primeira ves que te ouvi, estava deitada depois do almoço no quintal de uma amiga, chupando uma laranja quando começou a tocar “Mania de você”, eu tinha 11 anos. Estava um sol gostoso e fiquei ali ouvindo a letra, o ritmo gostoso e só pensando em rolar com o André, o menino que eu gostava e também era do Riacho Grande. Fiquei loucona com as músicas desse LP. Quis conhecer quem era a cantora. Foi amor à primeira vista.  
Pula uns anos… começaram as pistas de patinação… lá fui eu com a minha prima Virgínia… na Rock&Roller, aprendi rápido! Uma tarde começou a tocar “Lança Perfume” e comecei a patinar mais rápido… pensando se viria um príncipe encantado pegar na minha mão e não é que um pegou?! Suei frio, pois é, eu também já sonhei com príncipe encantado, (e encontrei, se chama Ricardo) demos umas três voltas juntos e cada um foi para o seu lado… acontece… mas você ficou comigo o tempo todo. 
Com a mesma prima fomos andar de carro na Augusta, ou melhor, ficar paradas na Augusta paquerando… ela tinha uma Brasília verde, mas nesse dia fomos com o Del Rey da minha mãe, que era o máximo, tinha até vidro elétrico! Chegaram dois meninos lindos para conversar com a gente, um em cada porta. Que delícia! Mas era muita coincidência, eram do bairro dela, do Ipiranga. Ela não acreditou! Beijou e começou a namorar o Saito, namorou anos com ele! Eu ainda não beijei dessa vez. e tocava “Mutante” no rádio! “Ai de mim que sou romântica”. 
Quando tinha 19 anos, conhecia um menino que vinha de São Paulo e tinha uma chácara lá no Riacho. Ele rodava por lá com um primo,até que um dia pararam na nossa rodinha e convidaram para uma festa que eles iam dar. Lá fomos nós! Sentamos todos com as pernas dentro da piscina e começamos tomar vinho no gargalo. Gente, aquela garrafa foi passando, passando e eu de gole em gole, uma hora esse menino pegou na minha mão para me dar uns beijinhos, mas não consegui levantar direito não… o resto da noite ele ficou cuidando de mim… e tocava “Baila Comigo”.  
Já artista, queria fazer uma série de mulheres juntas para falar da força de um grupo feminino e fiz a “Série Todas as Mulheres do Mundo”. Salve Rita Lee e Cazuza como inspiração! É uma delícia desenhar ouvindo você Rainha! “Dançar para não dançar”.  

Obrigada!  

Yara Dewachter 

Capítulo vigésimo quarto

Tenho 79 anos e 11 meses e parece que continuo com 30, nunca sai dessa idade. Sempre me olhei no espelho e me reconheci. Em épocas tive mais barriga, em outras menos, mas desde que engordei por causa de medicações e por causa do meu signo, fale para uma taurina fazer dieta ou comer quinoa, sempre tive barriga. Foram anos de sofrimento com ela… enfim ela ficou por aqui mesmo.

Todo mundo que está lendo esse capítulo sabe como amo brilhos, desde os sete anos quando vesti a primeira roupa de cetim, estreei. Estreamos várias vezes na vida e amo estrear com brilho. Formatura do colegial, aniversário de 18, 19, 20, 45 com peitos de silicone, 51 festa de arromba, 70 em Alagoas, finalmente comprei uma casa lá, quando meu filho fez um ano, top rosa bem colado… e assim por diante. Resolvi fazer os 80 anos na praia bem bronzeada. Importante! Ganhei uma tinker bell o ano passado. Todo mundo aqui sabe que eu só fiquei 24 horas sem cachorro na vida, sou apaixonada por eles.

Com quase 80 também penso quais são minhas paixões que resistiram a esses anos todos! Vou ser bem clichê: vinho, filmes, praia, flores, sexo!?!? SEXO do básico mesmo. Vinho de novo. Vou ser um pouco metida. Roma continuou sempre uma grande paixão! Só estou aqui divagando… sentada na praia, vendo garotos lindos com suas pranchas, que delícia! Podia passar o Cauã Reynold. Será que ele envelheceu bem? Eu não tenho mais mídias sociais então não sei… eu sou filha única e como boa filha única tenho grandes amigos e amigas. Nem todos da vida toda, mas muitos por muitos e muitos anos. Vários chegam hoje a noite para comemorar comigo. Não sou nem de longe uma velhinha solitária. Vai ter bolo de rolo, brigadeiro, decoração dourada e rosa!

Quanto tinha 35 anos resolvi que precisava ter uma profissão que eu gostasse até morrer. E eu tenho: desenho, faço assemblage, fotografo, consegui fazer desenhos grandes! Faço desenhos grandes! Instalações cada vez maiores. Continuo enxergando bem, já operei da catarata. Deu tudo certo. Como eu disse estou falando aqui coisas triviais… mas tão marcantes… você se lembra quando dançou música lenta com alguém? A minha foi com o Rubens… tão gostoso inesquecível! Eu usava óculos, magrela, mais alta que ele… mas foi uma delícia. Você se lembra se gozou na primeira vez que transou? Eu não gozei… coincidentemente foi com um Rubens também… achei que era frígida! Mas não era não. Não é fácil a coisa encaixar! Depois encaixou bastante! Ufa!

Eu tenho uma amiga mais nova que sempre sentamos num bar e ficamos olhando as pessoas passarem, tomando vinho rosé ou cerveja, tanto faz… e vamos nos animando… falando da vida, mas sempre de olho nas pessoas. Esse tem a bunda bonita, nossa esse é forte, eu gosto desse um pouco feminino, essa veste muito na moda, essa credo que cafona. Sabe meu filho essa semana começou a trabalhar. Como você está se sentindo na separação? E assim ia! Ela é minha amiga até hoje, mais nova. Eu vou morrer primeiro! Ainda bem!

Eu sempre fui indomável, algumas pessoas tentaram me convencer a fazer o que eu não queria… não deu muito certo. Usei shorts curtíssimo, roupas larguíssimas, escrevi o que eu quis, desenhei o que eu quis, sempre fui uma artista que foi para a rua retratar o que eu vi. Virei performer com 52. Amo! Não perdeu a graça com o passar dos anos. Só melhorou, fiquei mais escrachada.

Hoje acordei, passei meus óleos essenciais para ansiedade. Também tomo os remédios, mas esses são a noite.

Remédios, esse é um capítulo à parte. Fiquei hipocondríaca como a minha mãe, tenho três gavetas de remédios. Para dormir, para ir no banheiro, para bipolaridade, magnésio, etc. Tudo bem, me acostumei a isso, tem também para tireoide… enfim muitos. Voltando ao acordar… tomei café descafeinado (para não ficar muito ligada) iogurte, kiwi e mamão, pão francês, não consigo viver sem… aí vou para o mar. Mergulho! Depois começo a trabalhar. A minha vida é trabalhar! As 17:00 paro para olhar o por-do-sol (está meio bucólico demais,né). Uma coisa que não contei, falei hoje para o meu amigo, tenho sonhos eróticos com mulheres às vezes, mas não tenho vontade de beijar nenhuma. E tenho muitos pesadelos, muitos… sabe aquela sensação que você está caindo? E acorda sobressaltado? Tenho sempre. Acordo ofegante. Outra coisa que tenho muito é dor de cabeça. Dizem que os bipolares tem muita. Eu vivo com novalgina. Faço exercício todo o dia. Ginástica de velhinha, peso de um quilo, elástico levinho, é o que temos e o que me ajuda. Ando muito também… não gosto de subida. Ando no plano mesmo. Outra coisa que nunca gostei foi de esquiar! Credo! Morro de medo de barranco, altura, de cair… e gosto mesmo é de calor.

Gosto de assistir olimpíadas! Gosto de ginástica olímpica! Nádia Comaneci, ginasta russa! Primeiro 10 da ginástica em 1976.

Eu fui corinthiana desde 1977 até os meus 60. Enjoei. Perdeu a graça futebol para mim. Ainda sou fã do Casagrande, que, como eu, conseguiu se curar (hoje posso dizer que estou curada, graças ao meu psiquiatra) de uma doença psiquiátrica crônica. Como eu sofri! Mas disso falo outro dia. Hoje quero falar da roupa linda que vou usar, que fiz as unhas, cortei o cabelo. Comprei uma caixa de sidra, contratei um dj e hoje vou dançar muito. Claro! Vai ter arroz de berinjela, receita da Dona Odette. Para quem ficou curioso eu continuo casadíssima com o gordo. E o PP vem passar o aniversário conosco. Parabéns para mim!!!!!! E para nós todos.

Yara Dewachter