Juliana Monachesi

O EdEn [espaço de experimentação] inaugura em maio a primeira de uma série, intitulada “diálogos provisórios”, de exposições em que um artista que integra grupos de acompanhamento e pesquisa no EdEn apresenta trabalhos em “interlocução experimental” com obras de um artista convidado; os artistas do EdEn realizam a primeira exposição individual em São Paulo, enquanto os artistas convidados são nomes consagrados na cena de arte contemporânea paulistana. A primeira edição traz projetos inéditos dos artistas Yara Dewachter e Claudio Cretti. Yara Dewachter trabalha com óleo, cera e colagem sobre madeira e envereda pela primeira vez nesta exposição pelo campo do desenho e da serigrafia; Claudio Cretti apresenta uma escultura da série “Céu Tombado” (2006) e uma nova instalação, em que utiliza papel de arroz, fita adesiva antiderrapante e mármore.

Entre as pinturas de Yara e a escultura em mármore de Claudio existe um diálogo de massas e volumes refinados depositados sobre uma base rústica e mundana; Yara recobre, sem esconder, um conjunto de fotografias “feitas”, imagens da cidade que vemos à exaustão reproduzidas no universo comunicacional e artístico, com encáustica, velando a banalidade da fotografia nos dias de hoje com interferências que atualizam todo um repertório da pintura moderna e contemporânea. Já Claudio Cretti cava em um costão de mármore bruto pequenos nichos para abrigar peças polidas, feitas com o mesmo tipo de mármore, e que aludem à tradição da escultura moderna.

Desta forma, vemos conviver nas pinturas de óleo, cera e colagem sobre madeira e na peça da série “Céu Tombado” cultura e natureza ou cultura e barbárie, e é no diálogo entre as obras dos dois artistas que esta dicotomia que jamais se resolve (muito provavelmente porque não existe como tal, e é também isto o que os trabalhos de ambos põem em questão) fica evidenciada. A aproximação entre os trabalhos de Yara e Claudio não acontece por um processo metafórico, mas, antes por uma operação metonímica de alta complexidade.

Veja-se o diálogo entre a instalação inédita que Cretti realiza no EdEn e os novíssimos desenhos de Yara: enquanto ele “desvia” os usos convencionais do papel e da fita adesiva criando um desenho espacializado, ela “achata” a tridimensionalidade urbana nas fotografias frontais cuja ampliação em papel comum serve de base para a interferência com bastão oleoso e nanquim. Desenho disfarçado de escultura e intervenção urbana disfarçada de desenho, um contaminando o outro no espaço expositivo de forma a confundir o visitante acerca da autoria de cada uma das obras em separado: metonímia radical para tempos de incerteza; gesto artístico contundente para falar de um estado de coisas sempre provisório.

Juliana Monachesi