Saulo di Tarso

Por onde passo, o que vejo e escolho.

Vejamos – Eixo: linha reta que passa pelo centro de um corpo e em torno da qual êsse corpo executa movimento de rotação. Muito bem. Êsse pessoal dos dicionários escreve muito bem. Mas é realmente isso o que eu quero dizer em relação à clarabóia e ao poço? Claro que não é bem isso apesar de que a abobada celeste parece mover-se e a terra também. A terra não parece mover-se, a terra move-se efetivamente, acho que depois de Galileu todo mundo sabe disso. Fluxo-Floema  Hilda Hilst

“A primeira impressão que tive sobre os trabalhos de Yara Dewachter é que se tratava de pintura, pintura contemporânea por assim dizer por que é um trabalho que transcende a lógica cubista e, mais atrás, toda a ótica de uma pintura contemplativa determinada pelo alcance da perspectiva que ainda existiu na pintura Moderna. E senti isso não por causa de fenômenos conceituais, apenas, mas por matérias que, agregadas, condensavam os tempos da pintura. Simples: pigmento virgem e industrial, cera, encáustica e fotografia digital desviada para o cromatismo por essência.”

Vejo a contemporaneidade pelo prisma da pós-modernidade e, no caso da pintura que YD constrói, se nota um fenômeno específico desta fração temporal que é a multiplicidade de tempos encaixados pela matéria da pintura. Mas o problema não reside nos materiais e sim na maneira como ela os justapõe. Existe um aleatorismo que vem do sentimento da paisagem vista de passagem em trânsito e na velocidade alterada da janela de um carro, e, justamente, esta passagem da visão periférica tornou-se a referência primordial de uma paisagem modificada, uma paisagem de horizontes ao mesmo tempo fragmentados e infinitos. Por outro lado, cercados de uma finitude de percursos e pontos focais desfocalizados na maneira como Yara olha. Suas imagens impõem uma relação direta entre tempo material e tempo subjetivo.

Em “por onde passo o que vejo e escolho” existe também uma cadência resultante de uma paisagem interna, que se define muito bem quando Yara pronuncia que “a cor têm o afeto”. E algo que me pareceu bem estranho na convivência com Yara é que nunca consegui identificar motivos pelos quais ela se inexorabiliza à arte. Porém, quando notei que não havia chão nas suas paisagens percebi que Yara pinta para ficar de pé. E justamente o foco de onde ela se posiciona determina não mais que a paisagem de hoje pareça mover-se e a pintura também. Se vê que paisagem e pintura contemporânea movem-se efetivamente, acho que depois que passarmos diante de “por onde passo, o que vejo e escolho”, todo mundo saberá disso.

Saulo di Tarso
Curador da Casa do Olhar Luiz Sacilotto