Rafael Campos Rocha

É sabido que o ambiente de arte em São Paulo, principalmente o ambiente ligado à pintura, pode ser fortemente repressor, ainda que contra a vontade consciente de seus principais professores e pintores (pintores esses que acabam sendo os principais professores e assim por diante). A repressão acontece pelos mesmos motivos de sempre: a insegurança com relação ao outro – e a inveja que seu entusiasmo causa -, o dogmatismo que justifica a própria incapacidade de mudar, ou mesmo a preguiça para enfrentar desafios intelectuais, sendo que na maior parte dos casos a repressão é uma projeção do aluno. O modo mais fácil de livrar-se da responsabilidade e do desafio da liberdade.

Pois bem, yara dewachter foi educada em pintura nesse ambiente, e acredito que sua pintura usa esse aprendizado para polemizar com ele mesmo até, finalmente, simplesmente superá-lo. Não se trata aqui de uma superação fálica, ou mesmo do tipo dialética (outra ferramenta para a superação de outrem, no final das contas) mas da superação por preferir o aquém dos objetivos de um grupo do que o seu além. Me explico: onde se busca a profundidade da cor, o sentido da Forma e a qualidade estética, yara contrapõe uma cor rala, uma forma arbitrária e a tal “qualidade estética”, essa sim ela supera. Dá por encerrado o assunto com uma filosofia da indiferença, que só pôde ser corretamente apreciada pela crítica atual com o advento do multiculturalismo e outras formas de democratização da arte. Em outras palavras, Yara vence o jogo recusando-se a jogá-lo, virando o tabuleiro e despejando suas peças no chão ou mesmo pelo irritante “tá, tá bom” das discussões matrimoniais. Melhor dizendo, yara propositadamente perde o jogo, demonstrando assim o absurdo de suas regras e o sem-sentido de seu podium.

Sua atitude polêmica (ainda que discreta e mesmo não-declarada) pode também ser aferida pela escolha do material: a encáustica fria- tinta óleo aplicada com uma pasta de cera e terebentina – a preferida de nove entre dez pintores paulistanos. A escolha desse material por esses artistas têm uma razão técnica, que remete, entretanto, a um modelo histórico. Por agregar à secagem rápida uma intensidade da cor, e a essa intensidade uma materialidade resultado da pasta que leva a tinta, esses artistas mantêm viva a teoria greenbergiana do evolucionismo materialista da arte (ou seja, uma arte que cada vez mais se ocupa dos aspectos materiais de sua fatura e menos aos seus temas ou motivos abstratos). A encáustica fria possibilita a esses artistas fazerem uma pintura corporificada, armada de uma interioridade, de um sentido forte e – mais importante que tudo – de uma legitimação histórica pela semelhança com grandes modelos do passado, dos quais Rotkho, Morandi e De Kooning brilham altaneiros.

Pois bem, Dewachter usa esse material de forma arbitrária, provavelmente mais impulsionada pela sua secagem rápida do que pela sua materialidade. Essa materialidade, por sua vez, (quando aparece) tem o tom randômico dos defeitos de fabricação, dos ruídos inumanos que por vezes escapam à malha tecnológica e conspurcam a face de seus produtos. Suas redes geométicas, quadrados, setas e círculos não remetem ao entusiasmo do construtivismo histórico, mas à cinematografia distópica dos anos 80, em que o ruído da máquina, feita para servir aos humanos, os supera e procura seu extermínio, como em alien, blade runner e fuga de Nova York.

Repito-me: Yara usa o material de um grupo artístico não para superá-lo, como fazem os personagens históricos, no massacre das reputações alheias. Yara usa o mesmo material para jogá-lo sobre fotografias e fotos e desenhos de outros artistas ou dela mesma. Disse jogá-lo, porque a artista não busca uma síntese entre registros diferentes. Ela aponta justamente para o fim da síntese dialética, para o fim da superação como fim último da existência do artista o de quem quer que seja. Essa mulher de nome tão estranho, meio índio, meio alemão, sequer justifica algum dos lugares comuns que se aplicam às respectivas ascendências. Felizmente. No nome, como na obra, as peças não se encaixam para a solução do problema metafísico. Antes de Wittgenstein, Yara descobriu a inutilidade de resolver esses problemas.

Rafael Campos Rocha