Rosilene Fontes

Aluga-se – a narrativa da historia que a casa leva.

A idéia de reunir amigos artistas em uma casa partiu da artista plástica Yara Dewachter. Ela conseguiu uma casa de 400m2 que estava para alugar, que foi emprestada pela Vilma Eid. Amigo chama amigo e a casa abrigou 23 artistas e mais 10 artistas convidados.

Para trocar idéias junto com os artistas dando continuidade aos debates que muitos já haviam participado, vieram o filósofo José Bento Ferreira e o artista Rafael Campos Rocha.

Yara queria um espaço para experimentação, o “fazer livre” que foi alcançada nas visitas a casa, na convivência diária entre os artistas, na reforma da casa, na montagem conjunta dos espaços, nos cafés feitos pelo Giba e Fabiano, nas cervejas do final da tarde e nos muitos palpites que cada um dava.

Com a convivência na casa durante os três meses antes da inauguração, nasceu uma afetividade com a própria casa.

Lembrando Gastón Barchelard: vive a casa em sua realidade e em sua virtualidade, através do pensamento e dos sonhos.

E foi assim que cada um passou a sensibilizar os limites de seu espaço.

Foi formada uma diretoria para organizar o evento, custos, apoios, assessoria de imprensa, criação de cursos e palestras e até mesmo uma lojinha com obras de pequenos formatos dos artistas da casa.

A idéia do nome, depois de várias propostas foi dada pelo artista Roberto Fabra e foi unanimidade. Dissociar a casa de nosso dia-dia já não era mais possível. A casa em exposição para ser alugada abrigando as obras em exposição durante dois meses.

Aluga-se passou a ser um fato. Aluga-se – em exposição – de 10 de abril a 29 de junho. Para o texto de abertura da exposição foi convidada a artista plástica Leda Catunda.

Cada artista ganhou seu espaço, a chave da casa e também a tarefa de cuidar da reforma, o que nos aproximou ainda mais, sem grandes stress.

A liberdade de cada artista foi algo muito interessante, cada um teve o seu tempo de amadurecimento com o espaço e a obra. Giba Gomes e Yara transferiram seus ateliês para a casa. Giba pintava, fazia gravuras e ajudava na obra. Evandro Prado já tinha sua idéia pré-concebida e foi a  primeira sala a ser montada e também a primeira a ser alterada no segundo mês da exposição.

Felipe Segall evoluiu com sua obra mesmo depois da inauguração. Enquanto isso o mato no banheiro do artista Daniel Caballero crescia. As obras invisíveis da Marlene Stamm aos poucos iam sendo descobertas. Miriam de Los Angeles espelhou a sala na sua grande tela. Renato Pera virtualizou a casa em tom magenta; Rosilene Fontes com o mapa afetivo, nas suas memórias da infância e na intimidade dos espaços, guarda a função de habitar. Adriana da Conceição fez desenhos pelas paredes da casa …, Roberto Fabra … questiona o conceito de paz em línguas diversas.

Pela casa pôde-se ouvir vozes de gente que faz a historia da arte: Leda Catunda, Ricardo Ohtake, Sergio Romagnolo, Mario Gioia, Sandra Cinto, Vilma Eid, Laís Myhrra, Fernanda Feitosa, Fernando Velazquéz, Cauê Alves, Marcelo Araújo e Albano Afonso. Artistas que a cada semana iam bater papo sobre arte, sobre experiências pessoais e sobre a proposta da casa, que “apesar de não ser uma idéia nova, a iniciativa é uma forma de promover alternativas de exposições de arte contemporânea sem curadoria e em um ambiente familiar ao público”, atesta o grupo de artistas.

O espaço dado tornou-se suporte dialogando com a memória, os materiais. Pela casa pode sentir cada obra, e sua matéria, o cheiro, textura, cor, luz, som, o invisível, a memória, o movimento, a escala, a vibração, a imagem, a monocromia.

E para finalizar e deixar a memória da casa com as aulas de gravura de Giba Gomes a intimidade e afetividade entre artistas será efetivamente “gravada” através de gravuras dentro de uma caixa. Uma caixa, uma casa … espaços fechados para guardar lembranças…

Aluga-se não termina aqui, aluga-se arte contemporânea, aluga-se outro estado, outro país, aluga-se outros artistas – aluga-se em exposição.

Rosilene Fontes