Alexandre Araujo Bispo

Camélias: Yara Dewachter

Nomear as coisas obedece a uma necessidade humana básica: classificar o que existe e reconhecer as diferenças aparentes entre uma espécie de coisa e outra e organizá-las segundo a forma, a cor, o tamanho, o odor, o toque, a temperatura, o gênero. O universo das flores fornece um bom exemplo dos processos de classificação e nele encontramos uma série de nomes femininos:Bromélia, Perpétua, Rosa, Margarida, Macela, Camomila, Hortênsia, Melissa, Laranjeira, Dália, Violeta, Jasmin, Gardênia, Orquídea, Acácia, Azaléia, Angélica, Açucena, Tulipa, Amarílis, Lis, Gérbera, Begônia, Magnólia, Lavanda ou Camélia são nomes inspiradores.

É deste jardim de classificações que Yara Dewachter retirou o título – Camélias – para sua primeira exposição individual na célebre Biblioteca Mário de Andrade. O objetivo de Camélias é convidar quem por aqui passar que pare, olhe, escute e leia as imagens. A exposição reúne um conjunto de 45 desenhos representando, predominantemente mulheres da história e memória nacional que morreram há pouco tempo como a baiana Gal Costa (1945-2022), ou há muito tempo, como a portuguesa/pernambucana Brites Albuquerque (1517-1584). Para cada rosto desenhado, uma velha moldura trabalhada em gesso, coberta de dourado, ou entalhada em madeira escura. O traço firme e decidido marca todos os retratos. Sobre os desenhos ela aplica uma camada de cêra de abelha que resulta o efeito de distância temporal entre nós os espectadores e elas as retratadas.

Embora grande parte das mulheres que Yara desenha estejam mortas – Elza Soares, Hebe Camargo, Mãe Menininha do Gantois, Leila Diniz, Anita Malfati, Luisa Mahim, Anália Franco, Maria Felipa, Tarsila do Amaral, Pagu, entre tantas outras, a homenagem se estende também às mulheres vivas, contemporâneas da artista: Rita Lee, Marina Lima, Érika Malunguinho, Joênia Wapixana.

Em função desta exposição acontecer na Biblioteca Mário de Andrade, merece destaque os retratos de Maria Eugênia Franco e Oneyda Alvarenga pelos papéis profissionais que desempenharam no âmbito do funcionalismo público na área da cultura. Maria Eugênia Franco (1915-1999) foi crítica de arte, bibliotecária e gestora da Seção de Arte desta biblioteca durante três décadas. Oneyda Alvarenga (1911-1984) foi pesquisadora, musicista e folclorista, implementou e geriu durante várias décadas a Discoteca Pública Municipal, hoje Discoteca Oneyda Alvarenga preservada no Centro Cultural São Paulo.

Esta apresentação ficaria incompleta se esquecesse de dizer que a flor camellia japonica se tornou conhecida no Brasil ainda na segunda metade do século 19, no contexto das lutas pela abolição da escravidão. Foi nas duas últimas décadas antes da abolição em 1888 que a flor se transformou em ícone dos simpatizantes do movimento abolicionista. Apoiadora fervorosa da causa, a Princesa Isabel, também desenhada para a série Camélias, adotou o símbolo e o ostentou como elemento decorativo em seu próprio corpo. Apesar de muitos “quilombos abolicionistas”, existirem em várias cidades brasileiras, o mais famoso deles foi o quilombo do Leblon no Rio de Janeiro, responsável pelo cultivo de camélias para atender a capital imperial.

Alexandre Araujo Bispo – curador